Monday, December 14, 2009
Jejum das Causas Impossíveis
3 minutos de para sempre
em que noite e mar são o mesmo amor
cada um com suas estrelas
horizontes sem coragem
ilha dos amores
foram demasiadas notas desafinadas
sossega coração
mentindo o que não quero agora
dormindo lua, cuspo noite
sou de ondas de palavras
não consigo, não sozinho
quem te inspirou esses segredos?
céus sem estrelas
com cabeça de lua cheia
não se brilham em lado algum
são só mantos egoístas
Sunday, November 29, 2009
Ficções da Razão Fútil
3 minutos de para sempre
foram como se houvesse nevoeiro dentro da vida,
a entrar-me nos ossos
a cegar-me para o que não existe
ilha dos amores
foram Shinigamis chamados inveja
sossega coração
em meus momentos escuros
em nuvens que errei
em todas as coisas sem história
não consigo, não sozinho
quem te disse ao ouvido esse segredo?
céus sem estrelas
poluídos de olhares sem coragem
não foram fracos os silêncios
de estórias que nunca foram
Monday, November 9, 2009
Alma
Ela continuava. Mexia-se agora estática até que algum lugar a abrasasse a si.
Era ela um pouco eu.
Esboçava na cara, o sorriso que não sabia dar sem ser por que motivo fosse e desaparecia no caminho traçado por ela.
Enquanto o silêncio calou as nossas bocas pensámos milhões de coisas, várias vezes e repetidamente mas o sussurro apalavrado a cada respiração reticente só me fazia concluir que só queria fazer poesia com ela.
Então ela repetiu o que já tinha dito e eu ouvi calado, como da outra vez. Já faltavam duas horas para a meia-noite e apenas quatro para ser tarde demais e eu já só pensava em acabar o que ainda não tinha sido começado pela insensatez do coração.
- Eu sou assim – tocou-me novamente.
E era. E eu senti.
Pensei não a conhecer muito mais depois de quase tê-lo feito algumas vezes. Faria o que tinha a fazer e comprometer-me-ia a fazê-lo as vezes que fossem necessárias até ela se decepcionar em doses suficientes, isto porque ela queria alguém que a fizesse acreditar, como eu acreditava, sem querer convencer ninguém.
- Tudo o dizes é fumo – mandou-me à cara. Deixei-lhe acreditar sabendo que nem isso ela pensava ser verdade. Então, quando já não me apetecia ser como era, confessei finalmente:
- Quando não me apetece é quando sabe melhor.
- O quê?
- Voar – levar-me e elevar: era essa a minha premissa.
Começámos a partir daí uma odisseia de olhares mudos.
Porque como vento tardio só me sentia aparecer quando o Sol se cansava e a Lua, que era dela como tudo sem ser o que fosse, se encostava no conforto do escuro do céu inspirando o espírito a ser o que é, para morrer outra vez o Sol que sempre nasce
De madrugada, quando o orvalho se tocava nas folhas libertinas sentava-me para ver tudo no pensamento enquanto a sombra do dia ilustrava o mundo dela em cinzento na pálida certeza de ser o que queria. Perguntei-me, nesse para sempre que levava uns segundos de minutos infinitos, se juntos apenas conseguíramos chover abruptas e secas lágrimas na tempestade da paixão. No céu intermitente seriam relâmpagos fugazes e descompassados de vida em fúria de existirem que iriam iluminar, na sua própria efemeridade, tudo que estaria para vir. Eu, hirto de ardor ficava apenas a ver o dia entardecer-se e enquanto mais uma vez abusámos do silêncio para esconder os nossos propósitos a Alma de Nuvem levantou-se da cadeira de todos os dias, como sempre diferente, e seguiu a olhar para mim carregada nos seus olhos escuros tentando arrancar as palavras que eu não sabia dizer. Não tive medo nem nada, calei-me corajoso de medo de modo a não ter que dizer nada e ficar à espera que as acções dissessem aquilo que pudessem. Assim, fiquei a vê-la, como ela me via a mim, mas de maneira diferente com o silêncio de quem fica com algo por dizer, o tal que eu só sabia fazer. E logo nessa altura em que eu fazia do emudecimento as minhas palavras e das palavras o silencio que esperava por ser entendido ela desaparecia até aparecer novamente no crepúsculo da sensação.
Eu via-a. Ela via-me e mais. Eu via! Ela vinha e dizia entre brisas e trovões o que queria, quando queria:
- Serás capaz?
E eu aceitei relutante pelo que encontrámo-nos sobre a outra forma do Sol e dissemos tanta coisa que quase parecia óbvio que tinha sido tudo liberto ora pelos pulmões ou o cérebro. Aparentemente só faltava o coração, mas esse momento só libertou o medo das palavras apaixonadas de tal forma que quando reparamos já outras formas de silêncio, metamorfoseados a conversas intemporais e despropositadamente obsoletas, tornaram os diálogos em tudo o que faltava por dizer.
Mas fizemo-lo outra vez quando pela mão dela conheci o outro lado do rio de medo e conheci-a mais pelas palavras enquanto reconhecia a particularidade da beleza dela, a beleza desconhecida do local e a menosprezada Beleza, a da verdade. Foi a ponte de luzes, ali mesmo.
Tornaram-se recorrentes os encontros inauditos à medida que partilhávamos entre silêncios e olhares brisas contra o tempo.
Tanto que numa das noites que as nossas almas se acharam rendemo-nos na praia. A lua tinha sido apagada por algum deus de tal forma que só se via o brilho dos olhos escuros, os tais. Aí convergimos e senti a pele dela tão doce que divaguei em pensamentos normalmente reservados à solidão: sonhei. Enquanto sonhava, acordava e sentia submeti-me à velocidade louca de emular aquela sensação a todos os momentos possíveis. Imaginava as noites submissas de paixão em que esta se manifestava maior que o meu leve raciocínio para ganhar o vício de me trancar na casa de banho dando duas voltas enferrujadas com a chave na fechadura resiliente. Depois pegar no champoo de todos os dias e de seguida abrir a água numa torrente procurando vê-la enaltecer com o champoo elevando-se a espuma cristalina, quase do mesmo material de que eram feitos os sonhos e mais uma vez tocá-la como pudesse.
O céu ia envolvendo-a até comunicar-lhe a sensação do azul, acariciando-a como veludo, deixando-lhe o odor e a delícia da noite encontrarem-se no parque recôndito vazio de estrelas.
Cheirava a mel, sabia a chuva de vento, quando abracei-a como esperado. Olhei-lhe sem misericórdia para constatar o que eu já sabia e ver como já sentia sem tocar como devia. Perscrutei-lhe a alma à espera de mais um de todos os sinais que já havia dado: faltava a lua, a dela. Senti a respiração da Alma de Nuvem enquanto o escarlate do vermelho pintava de encarnado os lábios como duas cerejas. Nesse caso desisti de desistir e mexi-me até me encontrar entrelaçado com ela: já só faltava o corpo e o espírito, nem todo dele.
- Porque é tão difícil?
Já não disse nada só para explicar que a alma que fala sem palavras beija também. Entretanto as mãos da princesa na torre passaram-me o espírito até ao corpo e do corpo até às minhas até ser eu a tocar nas dela. Quando as mãos se enredaram aconteceu. Tocou lábio em lábio, língua com língua, corpo na alma e alma com corpo ao mesmo tempo: beijámo-nos sem trovoada. Naquela noite sem quarto não foi só a Lua que se encontrava crescente.
-Que horror – choveu ela sem se queixar.
Fiquei imóvel cá dentro ignorante a sonhar dormindo adormecendo os punhais de coração para apenas poder olhar e perder tudo nos seus olhos encontrados na falésia de brilho, precipitar-me no despique de paixão e estender-me na praia do coração: gostar. E olhava para os olhos de trovoada, límpido de nuvens, negro como o anoitecer do frio muitas vezes escaldantes e perpétuos como o Outono do longe fogo de amor.
E, embora não estivesse lá, senti o aroma da framboesa a tocar-nos em lábios quentes enquanto nos trocávamos tímidos como olhares procurando mais significados que estavam tão patentes nos toques que desprezámos um para o outro.
Foi um beijo histérico e cálido, do calor que não havia em Julho e se dissipava em Setembro com os espíritos que caíam com as folhas de Outono coradas pelas tolices de Verão, tantas vezes levadas por mim em tardes amenas de lusco-fusco. Assim, quando crescesse e degelasse, talvez renomeasse o coração segundo o calendário para viver feliz para sempre, o tempo que fosse, um momento de cada vez enquanto o Sol chorante, perante as horas sozinhas que contavam angustiadas os minutos da minha sentença, se troca pelo crescente do quarto da lua.
Era ela um pouco eu.
Esboçava na cara, o sorriso que não sabia dar sem ser por que motivo fosse e desaparecia no caminho traçado por ela.
Enquanto o silêncio calou as nossas bocas pensámos milhões de coisas, várias vezes e repetidamente mas o sussurro apalavrado a cada respiração reticente só me fazia concluir que só queria fazer poesia com ela.
Então ela repetiu o que já tinha dito e eu ouvi calado, como da outra vez. Já faltavam duas horas para a meia-noite e apenas quatro para ser tarde demais e eu já só pensava em acabar o que ainda não tinha sido começado pela insensatez do coração.
- Eu sou assim – tocou-me novamente.
E era. E eu senti.
Pensei não a conhecer muito mais depois de quase tê-lo feito algumas vezes. Faria o que tinha a fazer e comprometer-me-ia a fazê-lo as vezes que fossem necessárias até ela se decepcionar em doses suficientes, isto porque ela queria alguém que a fizesse acreditar, como eu acreditava, sem querer convencer ninguém.
- Tudo o dizes é fumo – mandou-me à cara. Deixei-lhe acreditar sabendo que nem isso ela pensava ser verdade. Então, quando já não me apetecia ser como era, confessei finalmente:
- Quando não me apetece é quando sabe melhor.
- O quê?
- Voar – levar-me e elevar: era essa a minha premissa.
Começámos a partir daí uma odisseia de olhares mudos.
Porque como vento tardio só me sentia aparecer quando o Sol se cansava e a Lua, que era dela como tudo sem ser o que fosse, se encostava no conforto do escuro do céu inspirando o espírito a ser o que é, para morrer outra vez o Sol que sempre nasce
De madrugada, quando o orvalho se tocava nas folhas libertinas sentava-me para ver tudo no pensamento enquanto a sombra do dia ilustrava o mundo dela em cinzento na pálida certeza de ser o que queria. Perguntei-me, nesse para sempre que levava uns segundos de minutos infinitos, se juntos apenas conseguíramos chover abruptas e secas lágrimas na tempestade da paixão. No céu intermitente seriam relâmpagos fugazes e descompassados de vida em fúria de existirem que iriam iluminar, na sua própria efemeridade, tudo que estaria para vir. Eu, hirto de ardor ficava apenas a ver o dia entardecer-se e enquanto mais uma vez abusámos do silêncio para esconder os nossos propósitos a Alma de Nuvem levantou-se da cadeira de todos os dias, como sempre diferente, e seguiu a olhar para mim carregada nos seus olhos escuros tentando arrancar as palavras que eu não sabia dizer. Não tive medo nem nada, calei-me corajoso de medo de modo a não ter que dizer nada e ficar à espera que as acções dissessem aquilo que pudessem. Assim, fiquei a vê-la, como ela me via a mim, mas de maneira diferente com o silêncio de quem fica com algo por dizer, o tal que eu só sabia fazer. E logo nessa altura em que eu fazia do emudecimento as minhas palavras e das palavras o silencio que esperava por ser entendido ela desaparecia até aparecer novamente no crepúsculo da sensação.
Eu via-a. Ela via-me e mais. Eu via! Ela vinha e dizia entre brisas e trovões o que queria, quando queria:
- Serás capaz?
E eu aceitei relutante pelo que encontrámo-nos sobre a outra forma do Sol e dissemos tanta coisa que quase parecia óbvio que tinha sido tudo liberto ora pelos pulmões ou o cérebro. Aparentemente só faltava o coração, mas esse momento só libertou o medo das palavras apaixonadas de tal forma que quando reparamos já outras formas de silêncio, metamorfoseados a conversas intemporais e despropositadamente obsoletas, tornaram os diálogos em tudo o que faltava por dizer.
Mas fizemo-lo outra vez quando pela mão dela conheci o outro lado do rio de medo e conheci-a mais pelas palavras enquanto reconhecia a particularidade da beleza dela, a beleza desconhecida do local e a menosprezada Beleza, a da verdade. Foi a ponte de luzes, ali mesmo.
Tornaram-se recorrentes os encontros inauditos à medida que partilhávamos entre silêncios e olhares brisas contra o tempo.
Tanto que numa das noites que as nossas almas se acharam rendemo-nos na praia. A lua tinha sido apagada por algum deus de tal forma que só se via o brilho dos olhos escuros, os tais. Aí convergimos e senti a pele dela tão doce que divaguei em pensamentos normalmente reservados à solidão: sonhei. Enquanto sonhava, acordava e sentia submeti-me à velocidade louca de emular aquela sensação a todos os momentos possíveis. Imaginava as noites submissas de paixão em que esta se manifestava maior que o meu leve raciocínio para ganhar o vício de me trancar na casa de banho dando duas voltas enferrujadas com a chave na fechadura resiliente. Depois pegar no champoo de todos os dias e de seguida abrir a água numa torrente procurando vê-la enaltecer com o champoo elevando-se a espuma cristalina, quase do mesmo material de que eram feitos os sonhos e mais uma vez tocá-la como pudesse.
O céu ia envolvendo-a até comunicar-lhe a sensação do azul, acariciando-a como veludo, deixando-lhe o odor e a delícia da noite encontrarem-se no parque recôndito vazio de estrelas.
Cheirava a mel, sabia a chuva de vento, quando abracei-a como esperado. Olhei-lhe sem misericórdia para constatar o que eu já sabia e ver como já sentia sem tocar como devia. Perscrutei-lhe a alma à espera de mais um de todos os sinais que já havia dado: faltava a lua, a dela. Senti a respiração da Alma de Nuvem enquanto o escarlate do vermelho pintava de encarnado os lábios como duas cerejas. Nesse caso desisti de desistir e mexi-me até me encontrar entrelaçado com ela: já só faltava o corpo e o espírito, nem todo dele.
- Porque é tão difícil?
Já não disse nada só para explicar que a alma que fala sem palavras beija também. Entretanto as mãos da princesa na torre passaram-me o espírito até ao corpo e do corpo até às minhas até ser eu a tocar nas dela. Quando as mãos se enredaram aconteceu. Tocou lábio em lábio, língua com língua, corpo na alma e alma com corpo ao mesmo tempo: beijámo-nos sem trovoada. Naquela noite sem quarto não foi só a Lua que se encontrava crescente.
-Que horror – choveu ela sem se queixar.
Fiquei imóvel cá dentro ignorante a sonhar dormindo adormecendo os punhais de coração para apenas poder olhar e perder tudo nos seus olhos encontrados na falésia de brilho, precipitar-me no despique de paixão e estender-me na praia do coração: gostar. E olhava para os olhos de trovoada, límpido de nuvens, negro como o anoitecer do frio muitas vezes escaldantes e perpétuos como o Outono do longe fogo de amor.
E, embora não estivesse lá, senti o aroma da framboesa a tocar-nos em lábios quentes enquanto nos trocávamos tímidos como olhares procurando mais significados que estavam tão patentes nos toques que desprezámos um para o outro.
Foi um beijo histérico e cálido, do calor que não havia em Julho e se dissipava em Setembro com os espíritos que caíam com as folhas de Outono coradas pelas tolices de Verão, tantas vezes levadas por mim em tardes amenas de lusco-fusco. Assim, quando crescesse e degelasse, talvez renomeasse o coração segundo o calendário para viver feliz para sempre, o tempo que fosse, um momento de cada vez enquanto o Sol chorante, perante as horas sozinhas que contavam angustiadas os minutos da minha sentença, se troca pelo crescente do quarto da lua.
Wednesday, October 7, 2009
de Nuvem
Ainda nem sequer tinha acabado de chover quando foi declarado o segredo.
- Ninguém pode saber – tocou-me no braço, olhou-me na cara e levantou-se da cadeira diferente todos os dias para se levar para a liberdade da rua. Não queria enganar ninguém, só aqueles que lhe apetecia por um motivo ou por outro, os mesmos de sempre. Andava invariavelmente sozinha nas ruas da pálida solidão mas disfarçava o que queria mostrar como ninguém.
Tinha os olhos de pérolas negras assombrados pelo escuro de um tom delicado atenuado pelo desencanto e as bochechas morenas como que manchadas de algodão doce. Tinha, junto aos olhos, marcas de lágrimas chovidas com o ardor da tempestade. Eram mesmo assim os olhos dela, carregados de nuvens cinzento promíscuo prontas a sacudirem de si o fruto do descontentamento ao mais pequeno aviso do palpitante coração. Desfrutava ainda de uma cara lenta de olhar e nariz transparente, cabelos simpáticos e rebeldes deliberadamente pousados até aos delicados ombros.
O corpo deslizante suavizava pelos sítios espontâneos em toda a largura dos amenos lábios finos e dormentes. Deixava sempre a sua marca em pequenas pegadas de mágoa de luta impetuosa para que ninguém as apagasse de si. Então, sentava-se na cadeira que lhe era escolhida e fechava-se outra vez e o sorriso com o olhar pendente para pensar em ser livre outra vez. Vivia como acordava, igual a si mesma e foi assim mesmo que eu a conheci. Tudo nela era tristeza menos aquilo que eu não via até perceber finalmente. Cozinhado com os sentimentos salteados, o espírito contorcia-se de feridas enquanto o corpo, todo ele, precisava de abraços eternos pelo máximo tempo possível.
A Alma de nuvem gritava dos céus rosados em interpelantes e agitadas lágrimas de silêncio de ter caído, movendo as montanhas e os seus olhos a serem o que se tornariam, sendo que nunca mais foram os mesmos dado que o mundo não arranjou melhor destino do que a fazer sofrer.
E mesmo quando não o fazia, doía e ela dizia como se fosse sempre igual, também nos momentos em que o era. Talvez só as caras fossem diferentes e as palavras sempre iguais. Mas era claro que, do vento, apenas tinha sentido o furacão de precipício e o tornado de paixão que invariavelmente eram como sentia.
Então calou o coração na sua torre de descontentamento onde se envolveu com a solidão enclausurada. Fazendo-o com timidez ao início, até a ânsia de se maltratar se manifestar demasiadas vezes até aquilo que tinha sido um desabafo da angústia que a agoniava tornava-se, tempos depois, em mais um hábito pernicioso a que sua alma se consentia.
Sonhava rebelde. Fechava-se na noite menos escura que encontrasse para se deitar de espírito tão vazio de cheio que estava e adormecia contorcida de dor.
Só que a dor que lhe doía desde sempre, doía calada sem se saber fazer sofrer. Murmurava ela cansada na calada da noite, doendo como mágoa que dói sem desejo, sem força sobre o dorido da tentação.
De espírito longínquo, não quis mais fazer-se existir. Procurou eclipsar-se por entre a lua, no Inverno das emoções perdidas.
Com gelo veio a quietude.
Lembrou-se que nunca teve muita coragem nem nunca foi uma mera heroína
Ela movia-se fechada, em frente, para todos os lugares possíveis sem nunca abraçar um lar para si.
Dormia inquieta e acordava irrequieta. Ficava inquieta, irrequieta no seu sonhar, por vezes acordada.
Saía sempre como chegava, moribunda nas suas certezas.
Nunca tinha dito adeus nem nunca tinha sido vista ir embora.
Era ela quem tinha sonhado em tempos, sem jamais viver nada real, como os sonhos que dormia.
E de repente sim, ela finalmente entendia as dúvidas que tomavam conta de si. Não parou de sonhar. Jamais foi ela mesma, nem foi nada, nem ninguém sem ser quando queria.
- Ninguém pode saber – tocou-me no braço, olhou-me na cara e levantou-se da cadeira diferente todos os dias para se levar para a liberdade da rua. Não queria enganar ninguém, só aqueles que lhe apetecia por um motivo ou por outro, os mesmos de sempre. Andava invariavelmente sozinha nas ruas da pálida solidão mas disfarçava o que queria mostrar como ninguém.
Tinha os olhos de pérolas negras assombrados pelo escuro de um tom delicado atenuado pelo desencanto e as bochechas morenas como que manchadas de algodão doce. Tinha, junto aos olhos, marcas de lágrimas chovidas com o ardor da tempestade. Eram mesmo assim os olhos dela, carregados de nuvens cinzento promíscuo prontas a sacudirem de si o fruto do descontentamento ao mais pequeno aviso do palpitante coração. Desfrutava ainda de uma cara lenta de olhar e nariz transparente, cabelos simpáticos e rebeldes deliberadamente pousados até aos delicados ombros.
O corpo deslizante suavizava pelos sítios espontâneos em toda a largura dos amenos lábios finos e dormentes. Deixava sempre a sua marca em pequenas pegadas de mágoa de luta impetuosa para que ninguém as apagasse de si. Então, sentava-se na cadeira que lhe era escolhida e fechava-se outra vez e o sorriso com o olhar pendente para pensar em ser livre outra vez. Vivia como acordava, igual a si mesma e foi assim mesmo que eu a conheci. Tudo nela era tristeza menos aquilo que eu não via até perceber finalmente. Cozinhado com os sentimentos salteados, o espírito contorcia-se de feridas enquanto o corpo, todo ele, precisava de abraços eternos pelo máximo tempo possível.
A Alma de nuvem gritava dos céus rosados em interpelantes e agitadas lágrimas de silêncio de ter caído, movendo as montanhas e os seus olhos a serem o que se tornariam, sendo que nunca mais foram os mesmos dado que o mundo não arranjou melhor destino do que a fazer sofrer.
E mesmo quando não o fazia, doía e ela dizia como se fosse sempre igual, também nos momentos em que o era. Talvez só as caras fossem diferentes e as palavras sempre iguais. Mas era claro que, do vento, apenas tinha sentido o furacão de precipício e o tornado de paixão que invariavelmente eram como sentia.
Então calou o coração na sua torre de descontentamento onde se envolveu com a solidão enclausurada. Fazendo-o com timidez ao início, até a ânsia de se maltratar se manifestar demasiadas vezes até aquilo que tinha sido um desabafo da angústia que a agoniava tornava-se, tempos depois, em mais um hábito pernicioso a que sua alma se consentia.
Sonhava rebelde. Fechava-se na noite menos escura que encontrasse para se deitar de espírito tão vazio de cheio que estava e adormecia contorcida de dor.
Só que a dor que lhe doía desde sempre, doía calada sem se saber fazer sofrer. Murmurava ela cansada na calada da noite, doendo como mágoa que dói sem desejo, sem força sobre o dorido da tentação.
De espírito longínquo, não quis mais fazer-se existir. Procurou eclipsar-se por entre a lua, no Inverno das emoções perdidas.
Com gelo veio a quietude.
Lembrou-se que nunca teve muita coragem nem nunca foi uma mera heroína
Ela movia-se fechada, em frente, para todos os lugares possíveis sem nunca abraçar um lar para si.
Dormia inquieta e acordava irrequieta. Ficava inquieta, irrequieta no seu sonhar, por vezes acordada.
Saía sempre como chegava, moribunda nas suas certezas.
Nunca tinha dito adeus nem nunca tinha sido vista ir embora.
Era ela quem tinha sonhado em tempos, sem jamais viver nada real, como os sonhos que dormia.
E de repente sim, ela finalmente entendia as dúvidas que tomavam conta de si. Não parou de sonhar. Jamais foi ela mesma, nem foi nada, nem ninguém sem ser quando queria.
Sunday, May 24, 2009
Tens Razão!
Tens razão, não há razão nem desculpas. Desculpa-me. Desculpas?
Foi sem querer, foi mesmo assim consciente e não devia. Devia estar calado não é? Mas a culpa foi calar-me de mansinho, e talvez não desses conta do idiota que o silêncio era.
Ups outra vez. Sorriso de vez mansinho e desculpas esfarrapadas já não são aceites; a misantropia não é desculpa, tens razão. Não mereces mas eu calo os cafés que não fui e não combinei: não sei explicar o que não digo.
Acho que só estou a ser assim e não devia não é?
Agora as letras não se calam como os cafés que me baldei, que calei, juntam-se contra mim e ficam ao meu lado. De facto estás a meu favor.
Não é muito inteligente pois não? É a inteligência que tenho.
A raposa ajuda ursos?
Os ursos não são ursos, são idiotas que não sabem viver sem salmão seja ele laranja ou engarrafado a dizer Mumbay.
Tens razão, tens toda a razão. Dizes o que devias e eu não devia não dizer. Urso.
Mas eu calei-me sem querer, sem desculpas. Foi assim só porque foi. Tu tens razão e não tens culpa que ursos não saibam voar, não saibam falar, não saibam viver, só sabem sonhar e calar de mansinho o que não reparam estar silenciado há algum tempo e não devia.
Os ursos comem pessoas. As raposas ajudam os ursos. As raposas são fixes.
Entendes os grunhidos? Não há Razão. Não tenho razão.
O de pardo solitário do urso do mato cuja burrice não consola ninguém e só o álcool me consola sozinho também: não aprendo lições. Tens razão.
Foi sem querer, foi mesmo assim consciente e não devia. Devia estar calado não é? Mas a culpa foi calar-me de mansinho, e talvez não desses conta do idiota que o silêncio era.
Ups outra vez. Sorriso de vez mansinho e desculpas esfarrapadas já não são aceites; a misantropia não é desculpa, tens razão. Não mereces mas eu calo os cafés que não fui e não combinei: não sei explicar o que não digo.
Acho que só estou a ser assim e não devia não é?
Agora as letras não se calam como os cafés que me baldei, que calei, juntam-se contra mim e ficam ao meu lado. De facto estás a meu favor.
Não é muito inteligente pois não? É a inteligência que tenho.
A raposa ajuda ursos?
Os ursos não são ursos, são idiotas que não sabem viver sem salmão seja ele laranja ou engarrafado a dizer Mumbay.
Tens razão, tens toda a razão. Dizes o que devias e eu não devia não dizer. Urso.
Mas eu calei-me sem querer, sem desculpas. Foi assim só porque foi. Tu tens razão e não tens culpa que ursos não saibam voar, não saibam falar, não saibam viver, só sabem sonhar e calar de mansinho o que não reparam estar silenciado há algum tempo e não devia.
Os ursos comem pessoas. As raposas ajudam os ursos. As raposas são fixes.
Entendes os grunhidos? Não há Razão. Não tenho razão.
O de pardo solitário do urso do mato cuja burrice não consola ninguém e só o álcool me consola sozinho também: não aprendo lições. Tens razão.
Tuesday, March 10, 2009
António Toni
Parte ! - Amor Lipído
Toni nasceu no dia como os outros. Ficou assente que não choviam canivetes como se conta por ai. Corresponde à verdade, no entanto, que foi o primeiro bebe de quem se soube nascer com dentes. Pequeninos e desenvoltos, desde logo cariados, conferiam à sua cara pálida, juntamente com os seus olhos amarelos um tom poético quase cómico se não fosse tão estrábica a sua trágica existência. Tinha olhos de chinês ou mongol, bem pequenos, proporcionais ao cérebro. Disse a primeira palavra aos doze anos e foi a prima Ana que a ouviu.
-AU! – disse repetidamente enquanto tentava, pelo empirismo, descobrir que parte da cabeça não doía quando lhe batia com o martelo.
Conta-se que o pai ficou bêbado de felicidade e mãe feliz de alívio do seu filho não ter nascido com a marca no corpo do caso que ela tinha tido com o senegalês da obra em frente à sua barraca.
Era um tipo porreiro e tal. Passeava, todos os dias, desatento até que um dia andava tão distraído que se apaixonou por uma gorda, nascida de 4 a 6 de Fevereiro, órfã de mãe desde logo, que nunca recuperou da cesariana até ao tórax.
Se gordura é formosura então ela era badocha de beleza.
Luz no Coração, a bucha.
Morava ao pé dos caniços obesos lá no bairro numa rua lamacenta com um riacho aromático pintado de lixo e com cheiro a condizer. Diziam os vizinhos que não se importavam, apesar do lixo, com o cheiro da família da Luz no Coração, a bucha, até no fedor em grande escala.
Todos os amigos perguntaram como era possível, como tinha acontecido. Não é que não gostassem de gordas, apenas as preferiam no jardim zoológico.
- Tás a curtir com uma anafada?
- Distraí-me…» – disse ele envergonhado.
Tanta confusão apenas porque a Luz no Coração não tinha o que as gordas tinham e que sabia tão bem. De peito reduzido e barriga exacerbada a nossa querida Luz no Coração era, digamos, uma mesa de passar a ferro obesa.
Toda a gente desculpava a Luz no Coração, a gorda até porque vida dela estava recheada de algumas tragédias.
Quando nasceu parece que não tinha lábios. O pai, inflamado pelo amor fraterno resolveu dar-lhe uns pelos anos. Talvez tenha sido o pior aniversário dela porque, embora tenha ficado com uns beiços novos, o pai foi preso e encarcerado, julgado e preso nesse mesmo dia.
-Eu não sabia que era ilegal!
O que é certo é que de facto era. Pelo propósito ser uma boa acção equacionou-se o perdão.
-És o pai da Luz no Coração, a gorda?
-Sou sim senhor! – disse orgulhoso.
Foi condenado a 3 anos de prisão.
Serviu de lição à família, que nunca mais roubou pneus de camiões, e nunca mais se referiu à ovelha obesa, eventualmente semi-negra da família.
Depois de algum trauma lá seguiu, lentamente devido ao peso, a sua pobre vida.
No ímpeto da primavera escondiam-se escondidos por entre as árvores para andarem lá refundidos nos disparates do amor.
Sucedia com frequência a mãe do Toni, nos entretantos daqueles aqueles desencontros encontrados, controlados pela paixão, chamá-lo para jantar, que não eram bolotas embora nesse aspecto ele de um porco se tratasse.
-Tenho um assunto em mãos – berrava mentiroso dado que as tetas da Luz no Coração não justificavam, de pequeninas que eram, tal insígnia para Toni tão importante.
Claro que demorou, mas percebeu que nem todas as gordas eram assim. Havia umas mais magras, sem estrias e congéneres, pelo que sempre se podia aventurar um pouco, porque até as gordas precisam de amor.
Toni nasceu no dia como os outros. Ficou assente que não choviam canivetes como se conta por ai. Corresponde à verdade, no entanto, que foi o primeiro bebe de quem se soube nascer com dentes. Pequeninos e desenvoltos, desde logo cariados, conferiam à sua cara pálida, juntamente com os seus olhos amarelos um tom poético quase cómico se não fosse tão estrábica a sua trágica existência. Tinha olhos de chinês ou mongol, bem pequenos, proporcionais ao cérebro. Disse a primeira palavra aos doze anos e foi a prima Ana que a ouviu.
-AU! – disse repetidamente enquanto tentava, pelo empirismo, descobrir que parte da cabeça não doía quando lhe batia com o martelo.
Conta-se que o pai ficou bêbado de felicidade e mãe feliz de alívio do seu filho não ter nascido com a marca no corpo do caso que ela tinha tido com o senegalês da obra em frente à sua barraca.
Era um tipo porreiro e tal. Passeava, todos os dias, desatento até que um dia andava tão distraído que se apaixonou por uma gorda, nascida de 4 a 6 de Fevereiro, órfã de mãe desde logo, que nunca recuperou da cesariana até ao tórax.
Se gordura é formosura então ela era badocha de beleza.
Luz no Coração, a bucha.
Morava ao pé dos caniços obesos lá no bairro numa rua lamacenta com um riacho aromático pintado de lixo e com cheiro a condizer. Diziam os vizinhos que não se importavam, apesar do lixo, com o cheiro da família da Luz no Coração, a bucha, até no fedor em grande escala.
Todos os amigos perguntaram como era possível, como tinha acontecido. Não é que não gostassem de gordas, apenas as preferiam no jardim zoológico.
- Tás a curtir com uma anafada?
- Distraí-me…» – disse ele envergonhado.
Tanta confusão apenas porque a Luz no Coração não tinha o que as gordas tinham e que sabia tão bem. De peito reduzido e barriga exacerbada a nossa querida Luz no Coração era, digamos, uma mesa de passar a ferro obesa.
Toda a gente desculpava a Luz no Coração, a gorda até porque vida dela estava recheada de algumas tragédias.
Quando nasceu parece que não tinha lábios. O pai, inflamado pelo amor fraterno resolveu dar-lhe uns pelos anos. Talvez tenha sido o pior aniversário dela porque, embora tenha ficado com uns beiços novos, o pai foi preso e encarcerado, julgado e preso nesse mesmo dia.
-Eu não sabia que era ilegal!
O que é certo é que de facto era. Pelo propósito ser uma boa acção equacionou-se o perdão.
-És o pai da Luz no Coração, a gorda?
-Sou sim senhor! – disse orgulhoso.
Foi condenado a 3 anos de prisão.
Serviu de lição à família, que nunca mais roubou pneus de camiões, e nunca mais se referiu à ovelha obesa, eventualmente semi-negra da família.
Depois de algum trauma lá seguiu, lentamente devido ao peso, a sua pobre vida.
No ímpeto da primavera escondiam-se escondidos por entre as árvores para andarem lá refundidos nos disparates do amor.
Sucedia com frequência a mãe do Toni, nos entretantos daqueles aqueles desencontros encontrados, controlados pela paixão, chamá-lo para jantar, que não eram bolotas embora nesse aspecto ele de um porco se tratasse.
-Tenho um assunto em mãos – berrava mentiroso dado que as tetas da Luz no Coração não justificavam, de pequeninas que eram, tal insígnia para Toni tão importante.
Claro que demorou, mas percebeu que nem todas as gordas eram assim. Havia umas mais magras, sem estrias e congéneres, pelo que sempre se podia aventurar um pouco, porque até as gordas precisam de amor.
Thursday, February 19, 2009
Trovoada Cai
tempos tratam as tentativas de amor
travando trezentos tratos enquanto intempestivamente
tentamos tentar trazer a tudo
o todo trazido a nós intemporalmente
trocamos tempestades
tendo-nos, a troco de tesouros antagonistas
ou antíteses tertamudeadas por todos,
cintilar à tona dos tolos
tocando nas togas tântricas
de tintas talvez trocadas
a totalidade total do todo
e a fatalidade fatal do fogo
que tudo transforma em tambores rufantes
reflectindo a reminiscência restante no rosto
a recorrente repercussão das regras rendidas
roem o rodo rodado das ruas reais e
remamos regressando à relativa rendição
remoendo as referidas regras ate à exaustão
recorda-te!
regressos sem réstia de relutância
ou regressos ressecivos de réstias de relações?
recolho-me em reclamações de reconhecimento:
o retroflexo do rarefeito reste
recordo-te eu recorrentemente
rodando, rolando
rimando a rodos sem roques nem reis
rodando o rolado
sem cair e sem nunca perceber a realidade
aos tolos que tentam trazer-te á tona
sem teatralizar o entendimento
em torno de tudo o que em ti transbordava
traria trancados, para serem tragados pelo trovão
tudo nele tu
todo ele teu
travando trezentos tratos enquanto intempestivamente
tentamos tentar trazer a tudo
o todo trazido a nós intemporalmente
trocamos tempestades
tendo-nos, a troco de tesouros antagonistas
ou antíteses tertamudeadas por todos,
cintilar à tona dos tolos
tocando nas togas tântricas
de tintas talvez trocadas
a totalidade total do todo
e a fatalidade fatal do fogo
que tudo transforma em tambores rufantes
reflectindo a reminiscência restante no rosto
a recorrente repercussão das regras rendidas
roem o rodo rodado das ruas reais e
remamos regressando à relativa rendição
remoendo as referidas regras ate à exaustão
recorda-te!
regressos sem réstia de relutância
ou regressos ressecivos de réstias de relações?
recolho-me em reclamações de reconhecimento:
o retroflexo do rarefeito reste
recordo-te eu recorrentemente
rodando, rolando
rimando a rodos sem roques nem reis
rodando o rolado
sem cair e sem nunca perceber a realidade
aos tolos que tentam trazer-te á tona
sem teatralizar o entendimento
em torno de tudo o que em ti transbordava
traria trancados, para serem tragados pelo trovão
tudo nele tu
todo ele teu
Thursday, January 22, 2009
Snuff [pm - ctqs]
Com os seus lábios senti o mundo nela vezes e vezes sem fôlego.
Era para o corpo o beijo para sempre da alma e para nós nunca houve realmente um amanhã.
E a miúda, avelã de olhos, sorriu e eu arrebatado roguei limpar com dor no mar do azul; lutar os olhos do seu fogo frustrado em melancolias de lábios secos, envolto de fumo,possuído por cancros de emoção: a face da felicidade é o sorriso da solidão.
Então aguentei o orgulho num cigarro e esperei que se evaporasse no álcool.
Porém já fui mais bêbado do que vivo e mesmo assim vivo assim, sem bebedeira que me cure de mim. Só me descubro no que bebo e me abandono ao fervor desta vida que me vai matando um amor de cada vez.
E talvez escrevesse uma carta de palavras riscadas acerca do que poderia ter sido mas usando os verbos no passado como se o tivéssemos feito na realidade.
Ela atira-se às minhas pedras e cospe a culpa na minha alma, mas do que pode vir e não se fez, eu já nem me importo desconhecer não querer saber.
Não vou ouvir a sua vergonha, nem amanhã. Já vesti a minha escolha, já vi o caminho que me vou perder. Já senti, já estive aí e nem a loucura vai ser desculpa.
Eu sou o Capitão Romance. Eu sou o Capitão Romance.
Era para o corpo o beijo para sempre da alma e para nós nunca houve realmente um amanhã.
E a miúda, avelã de olhos, sorriu e eu arrebatado roguei limpar com dor no mar do azul; lutar os olhos do seu fogo frustrado em melancolias de lábios secos, envolto de fumo,possuído por cancros de emoção: a face da felicidade é o sorriso da solidão.
Então aguentei o orgulho num cigarro e esperei que se evaporasse no álcool.
Porém já fui mais bêbado do que vivo e mesmo assim vivo assim, sem bebedeira que me cure de mim. Só me descubro no que bebo e me abandono ao fervor desta vida que me vai matando um amor de cada vez.
E talvez escrevesse uma carta de palavras riscadas acerca do que poderia ter sido mas usando os verbos no passado como se o tivéssemos feito na realidade.
Ela atira-se às minhas pedras e cospe a culpa na minha alma, mas do que pode vir e não se fez, eu já nem me importo desconhecer não querer saber.
Não vou ouvir a sua vergonha, nem amanhã. Já vesti a minha escolha, já vi o caminho que me vou perder. Já senti, já estive aí e nem a loucura vai ser desculpa.
Eu sou o Capitão Romance. Eu sou o Capitão Romance.
Tuesday, December 16, 2008
Deixa Morrer
Lisboa tem lábios de rio Tejo, um sorriso de colinas e duas faces complexas e pouco compridas. Deprime-se pela parte nova, alegra-se na velha quando já é noite. É pequena e não sabe sorrir sem ser de cinzento. Queixa-se enlameada nos processos caminhantes, como os carros que não andam, as pontes que servem de beijo feio ao rio que se suja de tristeza. Este ondula-se pelas ondas calmas que dançam a brisa, que não sabe assobiar, e esmagam-se contra as rochas de forma controversa e constrangida, zangadas pelo preto e branco que não é cinzento, talvez pelo verde que lhes pousa de cor. Vejo no balançar hiperactivo e monótono que cansam-se as saudades de serem grandes pois frequentemente parecem bater sem força fraquinha e ondulam sem vontade, displicentes e amuadas. Esta Lisboa tem, no mar, a alma.
À noite há outras ruas sobre as mesmas e as pessoas descem os bairros velhos e pintados de futilidade de letras sem sentido, descem também a depressão cega carregando o fardo do maior status quo que a Cofidis permitir. Deambulam os bares inúmeros sustentando o fingimento de toda a felicidade que não sabem viver. Muitos dos que lá pousam como pombas vêm do outro lado, o menos poético da capital, emprestando alguma audácia selvagem, como os seus espíritos.
Aquele povo deslavado e de cores cansadas procurando amores de emergência, amores que correm calados, morrem em silêncio e murmuram mudos nos suores dessas noites sem histórias. Andam mal dormidos e cheios de pensamentos de insónias: aqueles de quem dorme acordado e não dorme mais sem ser assim. Definitivamente oníricos na sua realidade.
Mas desde quanto tornou-se o amo-te uma pergunta? Desde quando me seguro no andar bêbado e tento endireitar-me e trocá-las, as pernas trocadas que se confundem com as linhas do caminho e se precipitam com a chuva ao destino.
Quando a emergência do ethanol não me poupou a falta de euros sentei-me alguns minutos no muro ainda seco para ganhar um pouco de ar de nicotina e saborear o cheiro da chuva e enxofre. Queria ver pedaços de lua no mar polvilhado de estrelas pequenas virando-se nos meus olhos enquanto observava esta cidade morrente.
Neste mezzanine de emoções despertaram-se-me as facas da angústia, o sentido do destino e a dor sem nome próprio para pensar perder palavras, perder-me nos pensamentos pedidos, perdões possíveis e frases que não quero saber.
Começou a chover dela também. Chovia-me nos lábios sem os seus, chovia-me nas mãos sem as suas que as agarraram, chovem os olhos na tempestade de memórias que se preferiam mortas, chovia na rua vazia de nós. Chovia rápido, mais depressa.
Porém ela estava ali ao meu lado o tempo todo quando desisti do mar para considerar a desenvoltura dos lábios dela e os beijos que davam, o balbuciar do silêncio da ventania que abanava os cabelos dela no sentido norte, a magia da íris redundantemente bela e, o sorriso sem palavras ou sons, triste olhar para o chão, o desapontado. Afinal só o pensamento tinha ficado no banco.
Podia ouvir o som de mim gritando, lutando explicar o que de vermelho não tenho. Era altura de dizer. Ela tinha de ficar para trás e eu não me importava: já tinha vindo com a solidão e estava preparado.
É engraçado, eu cá não morro de saudades, vivo delas até adormecer de memórias e são estas emoções em diferido que me poupam ao presente: sinto ontem o que vivo para hoje e não fujo. Nunca percebi porque estava ali a chorar, ela já devia saber e até aí ainda não tinha falado. Posso até estar errado, mas está para nascer a filha da puta de saudade que me vai fazer mudar.
À noite há outras ruas sobre as mesmas e as pessoas descem os bairros velhos e pintados de futilidade de letras sem sentido, descem também a depressão cega carregando o fardo do maior status quo que a Cofidis permitir. Deambulam os bares inúmeros sustentando o fingimento de toda a felicidade que não sabem viver. Muitos dos que lá pousam como pombas vêm do outro lado, o menos poético da capital, emprestando alguma audácia selvagem, como os seus espíritos.
Aquele povo deslavado e de cores cansadas procurando amores de emergência, amores que correm calados, morrem em silêncio e murmuram mudos nos suores dessas noites sem histórias. Andam mal dormidos e cheios de pensamentos de insónias: aqueles de quem dorme acordado e não dorme mais sem ser assim. Definitivamente oníricos na sua realidade.
Mas desde quanto tornou-se o amo-te uma pergunta? Desde quando me seguro no andar bêbado e tento endireitar-me e trocá-las, as pernas trocadas que se confundem com as linhas do caminho e se precipitam com a chuva ao destino.
Quando a emergência do ethanol não me poupou a falta de euros sentei-me alguns minutos no muro ainda seco para ganhar um pouco de ar de nicotina e saborear o cheiro da chuva e enxofre. Queria ver pedaços de lua no mar polvilhado de estrelas pequenas virando-se nos meus olhos enquanto observava esta cidade morrente.
Neste mezzanine de emoções despertaram-se-me as facas da angústia, o sentido do destino e a dor sem nome próprio para pensar perder palavras, perder-me nos pensamentos pedidos, perdões possíveis e frases que não quero saber.
Começou a chover dela também. Chovia-me nos lábios sem os seus, chovia-me nas mãos sem as suas que as agarraram, chovem os olhos na tempestade de memórias que se preferiam mortas, chovia na rua vazia de nós. Chovia rápido, mais depressa.
Porém ela estava ali ao meu lado o tempo todo quando desisti do mar para considerar a desenvoltura dos lábios dela e os beijos que davam, o balbuciar do silêncio da ventania que abanava os cabelos dela no sentido norte, a magia da íris redundantemente bela e, o sorriso sem palavras ou sons, triste olhar para o chão, o desapontado. Afinal só o pensamento tinha ficado no banco.
Podia ouvir o som de mim gritando, lutando explicar o que de vermelho não tenho. Era altura de dizer. Ela tinha de ficar para trás e eu não me importava: já tinha vindo com a solidão e estava preparado.
É engraçado, eu cá não morro de saudades, vivo delas até adormecer de memórias e são estas emoções em diferido que me poupam ao presente: sinto ontem o que vivo para hoje e não fujo. Nunca percebi porque estava ali a chorar, ela já devia saber e até aí ainda não tinha falado. Posso até estar errado, mas está para nascer a filha da puta de saudade que me vai fazer mudar.
Tuesday, October 14, 2008
Son Bahar
Num banco de jardim qualquer de um qualquer lugar ela estava sentada. A aguardar, pensativa, que as páginas do livro passassem finalmente para ter algo novo para ler e saber, pensar e sentir.
Enquanto aguardava olhava em redor, as folhas calmas e diletantes esvoaçavam como se não quisessem saber o lugar onde iam pousar. O céu imponente, rasgado em cinzento, fazia ver ao Sol a sua autoridade. No chão, apenas se viam destroços daquilo que havia sido, em tempos, uma folha de plátano cuja gravidade havia seduzido para que à terra voltasse o que a ela pertencia. O vento, esse preguiçoso, passeava melancólico sobre ela para num jubilo de vontade se recriar numa rajada que se apontou ao estático livro.
Os seus olhos, expectantes, abriram-se num misto de entusiasmo e expectativa: a página ia ser virada, já podia ler, saber, pensar ou sentir.
A cada página que esperava ser virada procurava a resposta à permanente pergunta que invariavelmente tomava conta de si.
Tentou ser rápida, pois o vento agora alegre permitir-se-ia a eclipsar algumas respostas.
«Quem sou eu?» - perguntava-se constantemente.
O vento acalmou finalmente, sendo condescendente, como que permitindo uns segundos de reflexão.
Ela era “bonita”, pelo menos todos aqueles que se atravessavam no seu caminho assim justificavam a sua predilecção pelo sensual apelo que a carne exerce em quem não vê mais do que isso. E, embora soubesse que a resposta não fosse exactamente essa, ela afundou-se nela. Era simples de aceitar e ainda mais simples de acreditar.
Revoltado, o vento insurgiu-se com violência, levando com as páginas, agora bruscamente trespassadas pelo torque, as respostas que na verdade não queriam ser descobertas.
L. Era ela.
Passeou-se pelo calmo sítio, sempre em frente, mas sem tentar chegar a algum lugar. Escurecia depressa e o frio invadia sereno. L continuou emberenhada em si. Talvez a resposta afinal não fosse suficiente.
O vento anuiu aos pensamentos pois desviava-se, controlado, para levar as folhas, que sabiam antecipadamente que o lugar delas não seria aquilo que, enganadoramente, ele lhes proporcionava: voar.
L vivia para si. Procurava as pessoas repetidamente, mas ela sempre era tão só. O seu sorriso espelhava na cara, bonita, o movimento de vazio que nela residia.
Mas ela era tão algo que a certa altura tornou-se uma nessessidade para mim, o Capitão Romance.
Em mim, ela jurou que via a luz do caminho que teria que percorrer e, sem hesitações, tentou, apenas porque aquilo que eu parecia era um reflexo óbvio daquilo que L desejava, iluminar-se com o fogo. O destino congeminava, o caminho não era fácil.
Então, o coração dela intermitente palpitava inseguro, com a certeza de quem não sabe bem até aonde quer ir. As respostas que lhe chegavam apenas aumentam a percepção de tudo aquilo que ainda estava por perceber, como se a luz que lhe chegava em forma de uma reminiscência de amor, mostrasse que o mundo era muito maior que aquilo que ela vira; como se o livro que o vento tentava mostrar tivesse mais páginas, de tantas formas diferentes que nunca seria possível absorver tudo delas.
Ela perdeu-se. Ela cansou-se. Talvez o caminho não fosse realmente o dela.
Que lição esta, tão importante a quem cuida a verdade. Uma mera reticência escrita em forma de facto: toda a vida procuramos as respostas em relação a quem somos realmente, mas a verdade, muito disso parte da dificuldade em aceitarmo-nos como nós somos, muitas vezes por isso não ir de encontro àquilo que gostariamos de ser.
Então ora, como herege, desistia daquela luz, que ao mesmo tempo era uma sombra, que arrebatava e mostrava que aquele ego, tão portentosamente construído, era apenas um pedaço do ópio de sensações que sempre havia prevalecido sobre ela. Ora novamente decidia que aquele sim, era o caminho que desejava percorrer, o da luz.
Aquele sentimento descartável revolucionou aquela chama, da mesma forma que a benzina subjuga o fogo ao seu desejo. Indignada, a flama consumia o volátil livro sem misericórdia. Para o lamento de L sobrava porém, a certeza tristemente patética de consciência em relação a tudo o que se passava. Ignorando o fumo e o fogo que apagavam as respostas que ela tanto queria ouvir e que agora, como se o desejo tivesse sido apenas um capricho, desprezava pretensiosamente.
Livre, voltou a sentar-se no banco, à espera que a resposta, desta feita, fosse de encontro àquilo que ela sonhava em ser.
Ignorou a luz e fingiu que foi uma ilusão só para não ter que aceitar a sua falha. Ficou ali sentada, possivelmente à espera que um novo fogo tomasse conta do sonho. Continuou a pensar, a ler e talvez a sentir mas nela, já só se via a cara bonita.
L, de repente tão bela, de repente adormecida.
Enquanto aguardava olhava em redor, as folhas calmas e diletantes esvoaçavam como se não quisessem saber o lugar onde iam pousar. O céu imponente, rasgado em cinzento, fazia ver ao Sol a sua autoridade. No chão, apenas se viam destroços daquilo que havia sido, em tempos, uma folha de plátano cuja gravidade havia seduzido para que à terra voltasse o que a ela pertencia. O vento, esse preguiçoso, passeava melancólico sobre ela para num jubilo de vontade se recriar numa rajada que se apontou ao estático livro.
Os seus olhos, expectantes, abriram-se num misto de entusiasmo e expectativa: a página ia ser virada, já podia ler, saber, pensar ou sentir.
A cada página que esperava ser virada procurava a resposta à permanente pergunta que invariavelmente tomava conta de si.
Tentou ser rápida, pois o vento agora alegre permitir-se-ia a eclipsar algumas respostas.
«Quem sou eu?» - perguntava-se constantemente.
O vento acalmou finalmente, sendo condescendente, como que permitindo uns segundos de reflexão.
Ela era “bonita”, pelo menos todos aqueles que se atravessavam no seu caminho assim justificavam a sua predilecção pelo sensual apelo que a carne exerce em quem não vê mais do que isso. E, embora soubesse que a resposta não fosse exactamente essa, ela afundou-se nela. Era simples de aceitar e ainda mais simples de acreditar.
Revoltado, o vento insurgiu-se com violência, levando com as páginas, agora bruscamente trespassadas pelo torque, as respostas que na verdade não queriam ser descobertas.
L. Era ela.
Passeou-se pelo calmo sítio, sempre em frente, mas sem tentar chegar a algum lugar. Escurecia depressa e o frio invadia sereno. L continuou emberenhada em si. Talvez a resposta afinal não fosse suficiente.
O vento anuiu aos pensamentos pois desviava-se, controlado, para levar as folhas, que sabiam antecipadamente que o lugar delas não seria aquilo que, enganadoramente, ele lhes proporcionava: voar.
L vivia para si. Procurava as pessoas repetidamente, mas ela sempre era tão só. O seu sorriso espelhava na cara, bonita, o movimento de vazio que nela residia.
Mas ela era tão algo que a certa altura tornou-se uma nessessidade para mim, o Capitão Romance.
Em mim, ela jurou que via a luz do caminho que teria que percorrer e, sem hesitações, tentou, apenas porque aquilo que eu parecia era um reflexo óbvio daquilo que L desejava, iluminar-se com o fogo. O destino congeminava, o caminho não era fácil.
Então, o coração dela intermitente palpitava inseguro, com a certeza de quem não sabe bem até aonde quer ir. As respostas que lhe chegavam apenas aumentam a percepção de tudo aquilo que ainda estava por perceber, como se a luz que lhe chegava em forma de uma reminiscência de amor, mostrasse que o mundo era muito maior que aquilo que ela vira; como se o livro que o vento tentava mostrar tivesse mais páginas, de tantas formas diferentes que nunca seria possível absorver tudo delas.
Ela perdeu-se. Ela cansou-se. Talvez o caminho não fosse realmente o dela.
Que lição esta, tão importante a quem cuida a verdade. Uma mera reticência escrita em forma de facto: toda a vida procuramos as respostas em relação a quem somos realmente, mas a verdade, muito disso parte da dificuldade em aceitarmo-nos como nós somos, muitas vezes por isso não ir de encontro àquilo que gostariamos de ser.
Então ora, como herege, desistia daquela luz, que ao mesmo tempo era uma sombra, que arrebatava e mostrava que aquele ego, tão portentosamente construído, era apenas um pedaço do ópio de sensações que sempre havia prevalecido sobre ela. Ora novamente decidia que aquele sim, era o caminho que desejava percorrer, o da luz.
Aquele sentimento descartável revolucionou aquela chama, da mesma forma que a benzina subjuga o fogo ao seu desejo. Indignada, a flama consumia o volátil livro sem misericórdia. Para o lamento de L sobrava porém, a certeza tristemente patética de consciência em relação a tudo o que se passava. Ignorando o fumo e o fogo que apagavam as respostas que ela tanto queria ouvir e que agora, como se o desejo tivesse sido apenas um capricho, desprezava pretensiosamente.
Livre, voltou a sentar-se no banco, à espera que a resposta, desta feita, fosse de encontro àquilo que ela sonhava em ser.
Ignorou a luz e fingiu que foi uma ilusão só para não ter que aceitar a sua falha. Ficou ali sentada, possivelmente à espera que um novo fogo tomasse conta do sonho. Continuou a pensar, a ler e talvez a sentir mas nela, já só se via a cara bonita.
L, de repente tão bela, de repente adormecida.
Foi a primeira vez que o Capitão Talvez Nunca me salvou....
Wednesday, August 13, 2008
Chiu
Não sei há quantos dias vivia como um Samsa sem alma quando a vi deitada na cama desperdiçando o sono com os sonhos de dormir.
Entrei no quarto demasiado silencioso e despertei-a com a minha insolência.
Acordou de sorriso rasgado como os olhos, vestiu-se e veio comigo para onde a levasse: irìamos passear com a chuva numa praia qualquer.
A Lua estava num quarto crescente que amarelava a noite escura pelo vendaval das praias solteiras: estavam noivadas de mar e de noite. Por entre onde havia nuvens paradas, o cèu negro estava sujo de branco transparente. Via o fumo de enxofre, fruto do batimento cardìaco da terra, que se exibia dançando por entre as clareiras de luz em passadas deliquentes mas sem pinga de fùrıa: bailava ao som da maresia com o cheiro a verde do musgo sentado nas pedras.
Assim que chegàmos, entràmos na fervente àgua impaciente onde agarrei a miuda de olhos rasgados como minha para nos sussurrarmos silêncios recônditos abafados pelo som do vento que não ouvìamos. Tentávamos não peturbar o intímo fundo negro do céu de Este que contornava os relâmpagos mudos.
A minha mão sossegava a sua cabeça encostando-a ao me ombro enquanto ela fechava os olhos condescendentes para eu ficar assim, a percorrer com o olhar o seu brilho, definindo a inspiração que todo aquele mar ondulava, azul pelo céu que não tem.
Nas planícies de nuvens haviam agora rios de céu plantados abrindo-se ao Sol que ressuscitava.
Permiti-lhe abrir os olhos: queria partilhá-lo com ela: só faria sentido assim.
Segurámos as nossas mãos no toque mais especial da noite e olhámo-nos sabendo o que falhámos em acontecer, deixando a noite entregue à sua própria perfeição. Continuámos segurados e a miuda de olhos rasgados e bochechas rosadas de nuvens de nascer do Sol prometeu ficar mais uma noite.
Deitámo-nos, esperei que adormecesse e adormeci também dormindo sonetos de angústia em sonhos de memórias acesas por todo o fogo de gostar sem o fazer.
As palavras debatiam-se em mim pela manhã, mas a culpa foi minha: tenho um coração desmazelado. Queria apenas dizer-lhe os versos que ela seria se eu os escrevesse.
Chiu, não fales – disse-me quando ja estava sentado na cama dela. Não queria significados que fizessem oceanos daquele lago: não me queria fingido.
O silêncio era o pacto que nos reservava cada momento respirado especial mas dificilmente me continha. De vez em quando tenho de sossegar a altura dos meus sonhos em pensamentos solitários pelo que tive que sair dali abrindo a porta pesada rumando á rua descalça onde no dia anterior tinha sido feliz.
Foi a última vez que a vi e é só isso o que a racionalidade me deixa dizer.
Entrei no quarto demasiado silencioso e despertei-a com a minha insolência.
Acordou de sorriso rasgado como os olhos, vestiu-se e veio comigo para onde a levasse: irìamos passear com a chuva numa praia qualquer.
A Lua estava num quarto crescente que amarelava a noite escura pelo vendaval das praias solteiras: estavam noivadas de mar e de noite. Por entre onde havia nuvens paradas, o cèu negro estava sujo de branco transparente. Via o fumo de enxofre, fruto do batimento cardìaco da terra, que se exibia dançando por entre as clareiras de luz em passadas deliquentes mas sem pinga de fùrıa: bailava ao som da maresia com o cheiro a verde do musgo sentado nas pedras.
Assim que chegàmos, entràmos na fervente àgua impaciente onde agarrei a miuda de olhos rasgados como minha para nos sussurrarmos silêncios recônditos abafados pelo som do vento que não ouvìamos. Tentávamos não peturbar o intímo fundo negro do céu de Este que contornava os relâmpagos mudos.
A minha mão sossegava a sua cabeça encostando-a ao me ombro enquanto ela fechava os olhos condescendentes para eu ficar assim, a percorrer com o olhar o seu brilho, definindo a inspiração que todo aquele mar ondulava, azul pelo céu que não tem.
Nas planícies de nuvens haviam agora rios de céu plantados abrindo-se ao Sol que ressuscitava.
Permiti-lhe abrir os olhos: queria partilhá-lo com ela: só faria sentido assim.
Segurámos as nossas mãos no toque mais especial da noite e olhámo-nos sabendo o que falhámos em acontecer, deixando a noite entregue à sua própria perfeição. Continuámos segurados e a miuda de olhos rasgados e bochechas rosadas de nuvens de nascer do Sol prometeu ficar mais uma noite.
Deitámo-nos, esperei que adormecesse e adormeci também dormindo sonetos de angústia em sonhos de memórias acesas por todo o fogo de gostar sem o fazer.
As palavras debatiam-se em mim pela manhã, mas a culpa foi minha: tenho um coração desmazelado. Queria apenas dizer-lhe os versos que ela seria se eu os escrevesse.
Chiu, não fales – disse-me quando ja estava sentado na cama dela. Não queria significados que fizessem oceanos daquele lago: não me queria fingido.
O silêncio era o pacto que nos reservava cada momento respirado especial mas dificilmente me continha. De vez em quando tenho de sossegar a altura dos meus sonhos em pensamentos solitários pelo que tive que sair dali abrindo a porta pesada rumando á rua descalça onde no dia anterior tinha sido feliz.
Foi a última vez que a vi e é só isso o que a racionalidade me deixa dizer.
Sunday, April 27, 2008
100 palavras.
E a batalha continua, derrota após vitória para morrer e respirar as vezes suficientes.
Capitão Romance: Rumo à Primavera
Capitão Romance: Rumo à Primavera
Wednesday, February 27, 2008
Cassandra
Estava sentado na Gulbenkian, como fazia alguns dias, algum sem tempo atrás e já me tinha consumido em fumo algumas vezes no meio do entretanto. O céu não parecia radiante.
Apercebi-me de um tímido Sol um pouco além. Para um astro tão brilhante, parecia de repente muito pouco radioso - haveria de perceber a sua eterna melancolia - irritante, ainda assim, enervava as nuvens à sua volta. Elas, soltas, acinzentadas em ódio sustiam com dificuldade o seu desejo em chorar.
Ao meu lado cadáveres de folhas desenhavam a paisagem à minha volta enquanto, num corrupio, o vento segurava os meus pensamentos levando o meu espírito algures para longe do corpo.
Estava frio dentro de mim. Creio que fora também.
Tornou-se tarde, o dia. A noite ameaçava invadir-me o relógio.
Enamorava-me a olhar para o telemóvel enquanto as horas arrebatavam-no sem pudor quando de repente olhei para o lado.
Nada vi.
Olhei novamente, e só a vi a ela. Vou ser franco, o seu sorriso. Nada mais.
Sem fazer perguntas sentou-se ao meu lado e sorriu. Aguardou uma resposta.
Eu nada disse.
Olhou-me novamente com os olhos de avelã e apresentou-se, como se sorriso dela não tivesse dito tanto à partida. Disse-me que o nome dela era Cassandra . Eu respondi-lhe hesitante:
«Olá Cassandra»
«Pareces-me preocupado. Que te ocupa a mente?» - disse ela questionando-me com o seu olhar sorridente.
Sorri de volta em vazio.
Expliquei-lhe que pensava em Amor. Mas cedo tive de corrigir, assim que ela me explicou que não sabia ao certo o que isso era.
«Amor?»
«Sim, as perguntas desesperam-me, mas acho que sempre tive medo das respostas.»
Ela parou por momentos antes de me dizer «Estás à procura Dele?»
Ri-me. «Não, ora ai está uma lição que já aprendi»
Ela riu-se de volta. «Quer-me parecer que achas que sabes umas coisas...»
«Sim! Creio que sim» - disse, hesitante, com medo que a minha resposta não fizesse jus à minha pretensão.
Antes que eu pudesse acrescentar qualquer coisa vi nos olhos dela a minha ignorância. Ela apercebeu-se do meu vacilo e questionou-me acerca dos meu conhecimentos de amor.
Comecei vacilante «Por vezes, para alguns, é uma musica...»
«E para ti?»- interrompeu-me.
Aí inspirei-me. Falei-lhe de rombos e oceanos, de toques e delicadezas. Expliquei-lhe, da mesma forma que, como Omega, regurgitei para outros ouvirem. No final acrescentei já em êxtase «É fazer sentir no beijo o toque e no toque o desejo. No desejo o torque que me espera com toque do beijo. É respirar uma essência na discência de um ego. Olhar tão longe e só ter aquele universo» - respirei - «Iluminar. Enfim, o Amor é belo»
Quem diria, numa noite igual a outras, algures num jardim em Lisboa, iria Eros revelar-se a mim. Foi assim que Cassandra me falou dos mistérios do amor. Pela boca de Platão, Sócrates disse aquilo que já tinha ouvido de Diotima, e foi isso mesmo que ela me explicou.
«Dizes que quando estás apaixonado, num estado em que referes que o amor habita em nós, é como se o universo estivesse concentrado na outra pessoa. Isso não é necessariamente falso. Platão diz que, em certo sentido, o universo realmente está nessa pessoa. Tu só precisas transformar essa dimensão e ver não apenas a pessoa, mas o universo nela.»
Concordei.
Ela olhou-me profundamente sondando os meus pensamentos que entretanto haviam sido entregues pelo vento. Compreendi que não tinha chegado da mesma forma que tinham vindo. Talvez tivessem sido sacudidos pela noite.
Perguntou-me serenamente «Achas então que o Amor é belo?»
«Se falamos do amor que exaltei há momentos, sei que é, só pode ser. Quando amamos, subitamente vemos, não a manifestação da beleza, mas a beleza em si. Esse é o ponto alto dos sagrados mistérios. O amor expressa-se como a manifestação eterna da beleza em si. Apaixonamo-nos pela essência que torna belas todas as coisas.»
Parou uns segundos até que decidiu contar-me então a história do nascimento do Amor. Era já uma história antiga quando os antigos a contaram pela primeira vez. Diziam que era quando o tempo ainda era o Sol. Talvez na mesma altura em que a noite seduziu a Lua aos seus desígnios, mesmo antes de se adornar de estrelas como uma promessa desse amor. Bem no momento em que o Sol se escondeu envergonhado e assim o fez todos os dias, para no dia seguinte se levantar em orgulho outra vez.
Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais encontrava-se também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. A Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado. E pronto... concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite, o Amor, gerado em seu nascimento, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, é corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio ele de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá.
Sustive a respiração por alguns segundos.
«Queres dizer-me que o amor não possui em si a beleza que todos vemos?»
Ela apaziguadoramente colocou a mão na minha mão. Só aí reparei quão belas aquelas soavam em seu toque.
«O amor não é belo. O amor apenas acontece em pessoas belas, o amor persegue a beleza»
Ela depressa apercebeu-se do meu olhar inquisidor, algo decepcionado.
Entretanto, demasiado depressa para que eu pudesse ter visto, um insecto voou perante mim fazendo-me olhar para cima. Quase não tinha reparado como o céu já se tinha vestido de noite. Sendo que o Sol, no seu ritual diário, se havia escondido em vergonha perante o fado que lhe foi ditado. Não sei porquê, mas a noite parece-me sempre tão grande.
Acordei, acho que só dois dias depois, para falar com ela novamente. Passaram a Primavera, os beijos inconsequentes e a totalidade do “talvez seja paixão” enquanto tentava trazer a tudo, o todo a mim trazido intemporalmente. Tinha que ser. Não sei se por ser bela como o crepúsculo ou se por ter arrasado a sensação disforme dentro de mim de uma maneira tal que, se não tivesse achado tão verdadeira, teria sido quase cruel: definitivamente tinha que ser. Peguei no telemóvel com dois tracinhos de rede e liguei-lhe. Não tive coragem de dizer nada. Ou vi os “alô’s” , surpreendentemente nada impacientes, como se soubesse que era eu, até eu desligar covarde de sensações interrompendo o centésimo “alô” em voz doce dito no dialecto da delicadeza. Foi fumo outra vez. A realidade rodopiou nos pensamentos anarcas, as sensações manifestaram-se como as nuvens cinzentas e até dentro de mim choveu. Tentei novamente e só o silêncio prevaleceu. Assim continuou até que me deitei no fim do dia com a mente palpitante, insegura, encerrada em ferros de injustiça: tantas sensações só podiam ser a introdução a estar apaixonado.
Superei-me no entendimento do sublime sem ser num gesto altruísta e decidi esmolar o meu caminho. Foi sem querer que o fazia conscientemente pois não me devia sentir entregue à angústia de conhecer a verdade ciente que deve ser aí que se sabe que os sonhos foram partidos.
Quis gostar dela todo o tempo a seguir enquanto os meses se passavam até que depois da espera finalmente nos reencontrámos no lugar do costume.
Senti, no meu coração, a morte a palpitar. Entorpeceu-o sem ser subitamente, apaziguado pelo ódio crescente. Senti também a pele esfriar-se de dor.
Sentei-me. A vitalidade de mim dissipar-se-ia como se ali não mais fosse o seu lugar. Os meus olhos desfaleceram-se envergonhados e doaram o seu brilho à noite.
Cassandra ergueu-se solidária. Mas acho que o veneno já aí tinha corrompido a minha alma quando eu lhe disse secamente:
- Esperava que alguma morte já te tivesse caçado. – estava ressentido pelo abandono aos meus pensamentos.
Cassandra não me quis pedir desculpas mas os olhos dela traíram-na bem. As respostas de outrora já não eram aplicáveis: ela era a minha kryptonite.
- Dá-te a oportunidade de ser o mais perto de feliz possível.
-Tu não sabes amar... – atacou – Tens do toque de tocar mas o cansaço da vida, o síndrome de ser atroz, o coração impenitente só te trazem o aborrecimento de estar vivo e não concebo um amor doente e morto ou uma paixão moribunda perplexa de vazio nesse teu corpo de lágrimas soluçantes do ego de um mundo.
- Não – balbuciei por reflexo.
- Os homens raramente morrem de amor: eles adormecem antes. E as mulheres às vezes morrem desse adormecimento. Não sei mesmo se vale a pena morrer por ti.
Assumi que com estas palavras ela me dava permissão para a tocar e negar pela dança das amígdalas. Não pensei que fosse mais uma lição pelo que nesse mesmo pedaço de dia resolvemos acharmo-nos. Combinámos fazê-lo quando o manto de penumbra engolisse o Sol, para que apenas as estrelas testemunhassem o encontro. Logo que os asteriscos brilhantes reconquistaram o céu pela milionésima vez, corremos ao lugar marcado. No jardim, onde tantas vezes pousámos com as folhas do Outono, abraçámo-nos com suavidade, trocámos um beijo com o olhar e levámo-nos para outro sítio para, pela primeira vez, fazermos o amor
Desta forma, partilhando a cama, permanecemos um só. Iluminámo-nos Apenas nos levantávamos para nos alimentarmos de néctar e nos purificarmos em deuses. Fazíamo-lo tão depressa que o resto da sua respiração se transformou numa comoção.
«Voamos» – suspiramos sorridentes. De facto, assim foi até que quando subimos tão alto que, inanimados, inspiramos dúvidas e certezas, infiltramo-nos em teias de medo limando uma e outra significação. Entre as displicências, perdemo-nos em nós mesmos e embrenhamo-nos num “nós” agora existente. Sentimos, respiramos e desesperadamente vivemos
Soluçámos toques com ânsia de existir sem problemas em serem reais. Falcatruas de pensamentos, ilusões de fantasias: a utopia dos lábios colados. Encontramo-nos numa Babilónia de paraíso e em furor prometemo-nos luas de desejo, de ardor e de paixão. Em cada segundo que atingimos o zénite da sensação que nos invadia, verdadeiramente existimos.
Não foi bom. O amor limpou-se de negro naquela que ficou conhecida como a noite dos corações partidos.
Tinha conhecido Cassandra mas até agora, tantos beijos depois, ainda não sabia quem ela era.
- Era amor – dizia-se. Amor daquele que não é. Daquele que não transforma, só corrói. A natureza não me quis calar e disse mais do que devia portanto fi-lo eu enquanto pude, tentou ela enquanto quis, amarmo-nos como desse, sem nos sabermos conhecer. Eu via-a, ela via-me. Não constatávamos mais do que aquilo que desejávamos. A partilha única vigente era a doença de que ambos padecíamos, aquela sem nome: violinos de angústia que tocam pelas horas da racionalidade.
Ainda antes de conseguirmos cometer mais alguns de todos os erros possíveis já com as palavras nos amávamos. Nem foi preciso mentir.
A meta foram as palavras que todos já conhecemos e que o destino teceu há demasiado tempo na nossa sentença de ansiedade: ela tinha razão.
O maior pressuposto de estar vivo é morrer e eu esperava contornar só mais esta lei do Universo: não haveria mundo que me parasse.
(continua)
Apercebi-me de um tímido Sol um pouco além. Para um astro tão brilhante, parecia de repente muito pouco radioso - haveria de perceber a sua eterna melancolia - irritante, ainda assim, enervava as nuvens à sua volta. Elas, soltas, acinzentadas em ódio sustiam com dificuldade o seu desejo em chorar.
Ao meu lado cadáveres de folhas desenhavam a paisagem à minha volta enquanto, num corrupio, o vento segurava os meus pensamentos levando o meu espírito algures para longe do corpo.
Estava frio dentro de mim. Creio que fora também.
Tornou-se tarde, o dia. A noite ameaçava invadir-me o relógio.
Enamorava-me a olhar para o telemóvel enquanto as horas arrebatavam-no sem pudor quando de repente olhei para o lado.
Nada vi.
Olhei novamente, e só a vi a ela. Vou ser franco, o seu sorriso. Nada mais.
Sem fazer perguntas sentou-se ao meu lado e sorriu. Aguardou uma resposta.
Eu nada disse.
Olhou-me novamente com os olhos de avelã e apresentou-se, como se sorriso dela não tivesse dito tanto à partida. Disse-me que o nome dela era Cassandra . Eu respondi-lhe hesitante:
«Olá Cassandra»
«Pareces-me preocupado. Que te ocupa a mente?» - disse ela questionando-me com o seu olhar sorridente.
Sorri de volta em vazio.
Expliquei-lhe que pensava em Amor. Mas cedo tive de corrigir, assim que ela me explicou que não sabia ao certo o que isso era.
«Amor?»
«Sim, as perguntas desesperam-me, mas acho que sempre tive medo das respostas.»
Ela parou por momentos antes de me dizer «Estás à procura Dele?»
Ri-me. «Não, ora ai está uma lição que já aprendi»
Ela riu-se de volta. «Quer-me parecer que achas que sabes umas coisas...»
«Sim! Creio que sim» - disse, hesitante, com medo que a minha resposta não fizesse jus à minha pretensão.
Antes que eu pudesse acrescentar qualquer coisa vi nos olhos dela a minha ignorância. Ela apercebeu-se do meu vacilo e questionou-me acerca dos meu conhecimentos de amor.
Comecei vacilante «Por vezes, para alguns, é uma musica...»
«E para ti?»- interrompeu-me.
Aí inspirei-me. Falei-lhe de rombos e oceanos, de toques e delicadezas. Expliquei-lhe, da mesma forma que, como Omega, regurgitei para outros ouvirem. No final acrescentei já em êxtase «É fazer sentir no beijo o toque e no toque o desejo. No desejo o torque que me espera com toque do beijo. É respirar uma essência na discência de um ego. Olhar tão longe e só ter aquele universo» - respirei - «Iluminar. Enfim, o Amor é belo»
Quem diria, numa noite igual a outras, algures num jardim em Lisboa, iria Eros revelar-se a mim. Foi assim que Cassandra me falou dos mistérios do amor. Pela boca de Platão, Sócrates disse aquilo que já tinha ouvido de Diotima, e foi isso mesmo que ela me explicou.
«Dizes que quando estás apaixonado, num estado em que referes que o amor habita em nós, é como se o universo estivesse concentrado na outra pessoa. Isso não é necessariamente falso. Platão diz que, em certo sentido, o universo realmente está nessa pessoa. Tu só precisas transformar essa dimensão e ver não apenas a pessoa, mas o universo nela.»
Concordei.
Ela olhou-me profundamente sondando os meus pensamentos que entretanto haviam sido entregues pelo vento. Compreendi que não tinha chegado da mesma forma que tinham vindo. Talvez tivessem sido sacudidos pela noite.
Perguntou-me serenamente «Achas então que o Amor é belo?»
«Se falamos do amor que exaltei há momentos, sei que é, só pode ser. Quando amamos, subitamente vemos, não a manifestação da beleza, mas a beleza em si. Esse é o ponto alto dos sagrados mistérios. O amor expressa-se como a manifestação eterna da beleza em si. Apaixonamo-nos pela essência que torna belas todas as coisas.»
Parou uns segundos até que decidiu contar-me então a história do nascimento do Amor. Era já uma história antiga quando os antigos a contaram pela primeira vez. Diziam que era quando o tempo ainda era o Sol. Talvez na mesma altura em que a noite seduziu a Lua aos seus desígnios, mesmo antes de se adornar de estrelas como uma promessa desse amor. Bem no momento em que o Sol se escondeu envergonhado e assim o fez todos os dias, para no dia seguinte se levantar em orgulho outra vez.
Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais encontrava-se também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar - pois vinho ainda não havia - penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. A Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado. E pronto... concebe o Amor. Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite, o Amor, gerado em seu nascimento, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, é corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio ele de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância. Eis com efeito o que se dá.
Sustive a respiração por alguns segundos.
«Queres dizer-me que o amor não possui em si a beleza que todos vemos?»
Ela apaziguadoramente colocou a mão na minha mão. Só aí reparei quão belas aquelas soavam em seu toque.
«O amor não é belo. O amor apenas acontece em pessoas belas, o amor persegue a beleza»
Ela depressa apercebeu-se do meu olhar inquisidor, algo decepcionado.
Entretanto, demasiado depressa para que eu pudesse ter visto, um insecto voou perante mim fazendo-me olhar para cima. Quase não tinha reparado como o céu já se tinha vestido de noite. Sendo que o Sol, no seu ritual diário, se havia escondido em vergonha perante o fado que lhe foi ditado. Não sei porquê, mas a noite parece-me sempre tão grande.
Acordei, acho que só dois dias depois, para falar com ela novamente. Passaram a Primavera, os beijos inconsequentes e a totalidade do “talvez seja paixão” enquanto tentava trazer a tudo, o todo a mim trazido intemporalmente. Tinha que ser. Não sei se por ser bela como o crepúsculo ou se por ter arrasado a sensação disforme dentro de mim de uma maneira tal que, se não tivesse achado tão verdadeira, teria sido quase cruel: definitivamente tinha que ser. Peguei no telemóvel com dois tracinhos de rede e liguei-lhe. Não tive coragem de dizer nada. Ou vi os “alô’s” , surpreendentemente nada impacientes, como se soubesse que era eu, até eu desligar covarde de sensações interrompendo o centésimo “alô” em voz doce dito no dialecto da delicadeza. Foi fumo outra vez. A realidade rodopiou nos pensamentos anarcas, as sensações manifestaram-se como as nuvens cinzentas e até dentro de mim choveu. Tentei novamente e só o silêncio prevaleceu. Assim continuou até que me deitei no fim do dia com a mente palpitante, insegura, encerrada em ferros de injustiça: tantas sensações só podiam ser a introdução a estar apaixonado.
Superei-me no entendimento do sublime sem ser num gesto altruísta e decidi esmolar o meu caminho. Foi sem querer que o fazia conscientemente pois não me devia sentir entregue à angústia de conhecer a verdade ciente que deve ser aí que se sabe que os sonhos foram partidos.
Quis gostar dela todo o tempo a seguir enquanto os meses se passavam até que depois da espera finalmente nos reencontrámos no lugar do costume.
Senti, no meu coração, a morte a palpitar. Entorpeceu-o sem ser subitamente, apaziguado pelo ódio crescente. Senti também a pele esfriar-se de dor.
Sentei-me. A vitalidade de mim dissipar-se-ia como se ali não mais fosse o seu lugar. Os meus olhos desfaleceram-se envergonhados e doaram o seu brilho à noite.
Cassandra ergueu-se solidária. Mas acho que o veneno já aí tinha corrompido a minha alma quando eu lhe disse secamente:
- Esperava que alguma morte já te tivesse caçado. – estava ressentido pelo abandono aos meus pensamentos.
Cassandra não me quis pedir desculpas mas os olhos dela traíram-na bem. As respostas de outrora já não eram aplicáveis: ela era a minha kryptonite.
- Dá-te a oportunidade de ser o mais perto de feliz possível.
-Tu não sabes amar... – atacou – Tens do toque de tocar mas o cansaço da vida, o síndrome de ser atroz, o coração impenitente só te trazem o aborrecimento de estar vivo e não concebo um amor doente e morto ou uma paixão moribunda perplexa de vazio nesse teu corpo de lágrimas soluçantes do ego de um mundo.
- Não – balbuciei por reflexo.
- Os homens raramente morrem de amor: eles adormecem antes. E as mulheres às vezes morrem desse adormecimento. Não sei mesmo se vale a pena morrer por ti.
Assumi que com estas palavras ela me dava permissão para a tocar e negar pela dança das amígdalas. Não pensei que fosse mais uma lição pelo que nesse mesmo pedaço de dia resolvemos acharmo-nos. Combinámos fazê-lo quando o manto de penumbra engolisse o Sol, para que apenas as estrelas testemunhassem o encontro. Logo que os asteriscos brilhantes reconquistaram o céu pela milionésima vez, corremos ao lugar marcado. No jardim, onde tantas vezes pousámos com as folhas do Outono, abraçámo-nos com suavidade, trocámos um beijo com o olhar e levámo-nos para outro sítio para, pela primeira vez, fazermos o amor
Desta forma, partilhando a cama, permanecemos um só. Iluminámo-nos Apenas nos levantávamos para nos alimentarmos de néctar e nos purificarmos em deuses. Fazíamo-lo tão depressa que o resto da sua respiração se transformou numa comoção.
«Voamos» – suspiramos sorridentes. De facto, assim foi até que quando subimos tão alto que, inanimados, inspiramos dúvidas e certezas, infiltramo-nos em teias de medo limando uma e outra significação. Entre as displicências, perdemo-nos em nós mesmos e embrenhamo-nos num “nós” agora existente. Sentimos, respiramos e desesperadamente vivemos
Soluçámos toques com ânsia de existir sem problemas em serem reais. Falcatruas de pensamentos, ilusões de fantasias: a utopia dos lábios colados. Encontramo-nos numa Babilónia de paraíso e em furor prometemo-nos luas de desejo, de ardor e de paixão. Em cada segundo que atingimos o zénite da sensação que nos invadia, verdadeiramente existimos.
Não foi bom. O amor limpou-se de negro naquela que ficou conhecida como a noite dos corações partidos.
Tinha conhecido Cassandra mas até agora, tantos beijos depois, ainda não sabia quem ela era.
- Era amor – dizia-se. Amor daquele que não é. Daquele que não transforma, só corrói. A natureza não me quis calar e disse mais do que devia portanto fi-lo eu enquanto pude, tentou ela enquanto quis, amarmo-nos como desse, sem nos sabermos conhecer. Eu via-a, ela via-me. Não constatávamos mais do que aquilo que desejávamos. A partilha única vigente era a doença de que ambos padecíamos, aquela sem nome: violinos de angústia que tocam pelas horas da racionalidade.
Ainda antes de conseguirmos cometer mais alguns de todos os erros possíveis já com as palavras nos amávamos. Nem foi preciso mentir.
A meta foram as palavras que todos já conhecemos e que o destino teceu há demasiado tempo na nossa sentença de ansiedade: ela tinha razão.
O maior pressuposto de estar vivo é morrer e eu esperava contornar só mais esta lei do Universo: não haveria mundo que me parasse.
(continua)
Saturday, January 19, 2008
3:00 PM
Domingo, Janeiro 22, 2006
Que viagem intemporal nos espera desde que parte de mim cortou a corda?
Correndo o risco de confusões no membro cardíaco; provavelmente induzindo a uma deturpação da individualidade a alcançar; falhando o alvo, confesso-te: perdi-me do caminho.
Segundo dogmas associados, expresso assim, outra vez, todos os toques, todas as palavras; seja o que for que alimente esta chama intensa.
Todos os pensamentos que partilhámos, os bocados de alma que me deste não se esvanecem, porque quando as quedas se sucedem sei que o teu mundo, bem desconhecido por todos, espera pela ousadia do meu ego, para questionar a sua razão.
(Sempre soube quem tu és)
Pensando nas derrotas inflamadas; lambendo feridas que não saram nem cessam; olhando para um céu pintado de nuvens de um sangue púrpura, remetemo-nos àquilo que supostamente sonhámos.
Para sempre, e até ao dia de hoje, lembrei-me de ti. Só porque sim.
Segunda-feira, Janeiro 22, 2007
Como é que a realidade se metamorfoseou em memórias?
Por perto, por enquanto, o ceptro cardíaco aguarda sabendo que desta vez não se enganou.
Porque quando dói é a tua reminiscência que eu inspiro. E eu sei, só, como não parou de doer tanto.
Soube dizer que não sabia quando não queria dizer mais nada, e depois acrescentar que só a ti eu soube dizer tudo.
(Sempre soubeste quem eu sou)
Ia pedir desculpa porque não tentei lutar por ti, mas depois arrependi-me.
Enquanto não passa nem sara eu não sigo nem digo.
Ainda assim espero, a cada dia, beijar na tua boca, as palavras mudas que não disse a mais ninguém.
Hoje, como sempre, lembrei-me.

Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Doeu como teria sido sempre num amor tão grande que exalava desprezo de si mesmo
Iludi as certezas de que era minha – e era – porque quis, não soube. Só isso.
Não foi assim tão importante, apenas especial.
Iria fingir os murmúrios do pôr do Sol, dizer «amo-te» e ignorar todo o sentido que isso tivesse. Dizer apenas por dizer, como se não fosse de propósito. Talvez tenha mentido, mas não o fiz consciente.
Se tivesse que me lembrar de um nome para um exemplo de falta de coragem e porventura me esquecesse do meu, era o dela que diria. Para quê realizar as suas promessas amargas e redefinir os seus olhos para, no auge da solidão, remarcar a emoção no telemóvel, esperar que o sentido falhasse? Talvez aguardar a sua resposta para depois, num acto tristemente arrogante, rejeitar a chamada da paixão: coração ocupado.
Já não importava. Ia ficar por aqui a tossir o fumo de ontem à noite. Dóia-me a cabeça e a consciência: a ressaca é sempre forte demais, exactamente como acordei todos os dias.
Ainda tinha na boca o sabor a hélio daquele beijo de etér do significado de uma paixão que se pode classificar como gasosa.
Tomei o pequeno almoço como mandam as leis: um Gin Tónico e dois cigarros, um lento antes, outro mais lento depois. Bebi um café estranho e seco com mais açúcar do que tamanho. Fumei mais um cigarro de fumo a bater na cara e voltei a deitar-me preguiçoso. Tentei ter orgulho no desdém mas a dor de cabeça lembrou-me em sonhar com ela outra vez, vezes e vezes.
Maldita ressaca.
Tentei perceber aquela paixão de fantasma, o rodízio de sensações, a poesia sem palavras nem virgulas, a ditadura dos pontos finais e toda a pontuação da frase mais pequena de gostar dela mas foi tarde demais. O fatalismo aceso do romance confiscado é a lei do non-sense e do esplendor que na verdade nunca vi nela.
Dizem que Paris é a cidade-luz, mas de luminosidade só lhe conheci o luar até se lhe apagarem os olhos quando ainda estava ao meu lado
Que viagem intemporal nos espera desde que parte de mim cortou a corda?
Correndo o risco de confusões no membro cardíaco; provavelmente induzindo a uma deturpação da individualidade a alcançar; falhando o alvo, confesso-te: perdi-me do caminho.
Segundo dogmas associados, expresso assim, outra vez, todos os toques, todas as palavras; seja o que for que alimente esta chama intensa.
Todos os pensamentos que partilhámos, os bocados de alma que me deste não se esvanecem, porque quando as quedas se sucedem sei que o teu mundo, bem desconhecido por todos, espera pela ousadia do meu ego, para questionar a sua razão.
(Sempre soube quem tu és)
Pensando nas derrotas inflamadas; lambendo feridas que não saram nem cessam; olhando para um céu pintado de nuvens de um sangue púrpura, remetemo-nos àquilo que supostamente sonhámos.
Para sempre, e até ao dia de hoje, lembrei-me de ti. Só porque sim.
Segunda-feira, Janeiro 22, 2007
Como é que a realidade se metamorfoseou em memórias?
Por perto, por enquanto, o ceptro cardíaco aguarda sabendo que desta vez não se enganou.
Porque quando dói é a tua reminiscência que eu inspiro. E eu sei, só, como não parou de doer tanto.
Soube dizer que não sabia quando não queria dizer mais nada, e depois acrescentar que só a ti eu soube dizer tudo.
(Sempre soubeste quem eu sou)
Ia pedir desculpa porque não tentei lutar por ti, mas depois arrependi-me.
Enquanto não passa nem sara eu não sigo nem digo.
Ainda assim espero, a cada dia, beijar na tua boca, as palavras mudas que não disse a mais ninguém.
Hoje, como sempre, lembrei-me.

Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Doeu como teria sido sempre num amor tão grande que exalava desprezo de si mesmo
Iludi as certezas de que era minha – e era – porque quis, não soube. Só isso.
Não foi assim tão importante, apenas especial.
Iria fingir os murmúrios do pôr do Sol, dizer «amo-te» e ignorar todo o sentido que isso tivesse. Dizer apenas por dizer, como se não fosse de propósito. Talvez tenha mentido, mas não o fiz consciente.
Se tivesse que me lembrar de um nome para um exemplo de falta de coragem e porventura me esquecesse do meu, era o dela que diria. Para quê realizar as suas promessas amargas e redefinir os seus olhos para, no auge da solidão, remarcar a emoção no telemóvel, esperar que o sentido falhasse? Talvez aguardar a sua resposta para depois, num acto tristemente arrogante, rejeitar a chamada da paixão: coração ocupado.
Já não importava. Ia ficar por aqui a tossir o fumo de ontem à noite. Dóia-me a cabeça e a consciência: a ressaca é sempre forte demais, exactamente como acordei todos os dias.
Ainda tinha na boca o sabor a hélio daquele beijo de etér do significado de uma paixão que se pode classificar como gasosa.
Tomei o pequeno almoço como mandam as leis: um Gin Tónico e dois cigarros, um lento antes, outro mais lento depois. Bebi um café estranho e seco com mais açúcar do que tamanho. Fumei mais um cigarro de fumo a bater na cara e voltei a deitar-me preguiçoso. Tentei ter orgulho no desdém mas a dor de cabeça lembrou-me em sonhar com ela outra vez, vezes e vezes.
Maldita ressaca.
Tentei perceber aquela paixão de fantasma, o rodízio de sensações, a poesia sem palavras nem virgulas, a ditadura dos pontos finais e toda a pontuação da frase mais pequena de gostar dela mas foi tarde demais. O fatalismo aceso do romance confiscado é a lei do non-sense e do esplendor que na verdade nunca vi nela.
Dizem que Paris é a cidade-luz, mas de luminosidade só lhe conheci o luar até se lhe apagarem os olhos quando ainda estava ao meu lado
Wednesday, December 19, 2007
A Parábola de Chuang-Tzu
Quando abusava da insónia e do álcool, engolido em drogas esperava-me o resto do mundo de conquistas. Eram noites apoteóticas de beijos anónimos e sem sentido, respirações suspensas, vidros de emoção, paixões descartáveis, janelas de sentidos surdos: amores de emergência. Conheci caras de olhares soberbos e violadores da promíscua noite; deambulantes na serenidade da lua vermelha nos sussuros de sabores sonâmbulos. Conheciam-se só pelos nomes e apresentavam-se como tal. Tantos diferentes, mas podiam bem ser só um. Encontravam-se nos lugares marcados pela carne e era ali, quando a noite abraçava o céu, que sentiam o corpo sacudir-se ansioso, apreensivo de desejo. Aí, deambulavam pelas ruas da luxúria à procura do passeio do prazer. Naquelas vielas indistintas davam-se a todos os que conseguissem por segundos apagar o fogo que jazia dentro de delas, para depois, num misto de alívio e frustração se dirigirem aos seus aposentos e chorar com toda a avidez que a amargura lhes permitisse. Não se via tal pesar desde o dia em que a Tristeza e o Pranto resolveram juntar, numa cerimónia presidida pela Dor, os seus destinos para viverem para sempre na melancolia das lágrimas. Crê-se foi nessa altura que, em homenagem àquela união, o Desgosto resolveu pintar o céu de cinzento enquanto a Mágoa ensinava as nuvens a chorar. Tudo isto perante um desconsolado Sol que, pelo que se sabe, se enamorara pela Angústia, logo depois da Lua se ter rendido ao calor da Noite
Esvoaçavam liberdade naqueles corpos até se amestrarem pelo álcool para se apresentarem como gostariam que fossem.
Mostravam-se todas como corpos de ilusão desencantada.
- Não sei se é dos teus olhos mas esse teu coraçãozinho é fácil demais, sabe a pouco.
Mas diziam que não:
-Não é bem assim.
Invariavelmente perguntava displicente:
Quantas vezes foi perfeito e voaste? Quantas vezes foi especial e não doía nem nas quedas nem nada. Quantas foram diferentes, aquelas tuas histórias da treta sempre iguais no mesmo e diferentes em não sei quê e na cor dos olhos?
Quantas vezes disseste “incrível a sensação”;”excepcional o sentimento”; ”indescritível a emoção”? Quantas?
Quantas vezes era perfeito e depois tudo e depois nada e depois tudo outra vez até caíres, e não podias, e chorares para ser perfeito novamente?
Não foi um gesto bonito mas a culpa não me assiste: nasci de coração ao contrário e de sangue agridoce.
- Não estás sozinha, és apenas como as outras. As gajas lindas, como tu. Mas não te vás, estou aqui para ti: vamos fazer tempestades.
Quis mudar o mundo delas, uma de cada vez: um amar de areia único por uma só noite. Cada beijo seria ímpar e proporcionalmente apaixonado e menosprezado.
Algumas rendiam-se, outras diziam que o faziam. Perdiam-se num amanhã, como sempre, dia após dia. Não há futuro nas palavras quanto mais nas sensações: é tudo pior quando se finge.
Quando acordava sonhava ser outra a realidade atrás de cada toque. Cada vazio era uma princesa à espera de ser conhecida; cada deserto um poema à espera de ser escrito e foi esse o destino de algumas: memórias de poesia até gastar o ultimo verso desconexo que as palavras me facultassem.
-Isto tem que acabar –
Estava cansado de abraços de vinganças e vitórias, resquícios e derrotas e varias maleitas de espírito pelo pedi sempre que não se sentissem usadas:
- É uma questão de verdade –
Não que fosse eu o justo o belo ou o bom; justiceiro de almas livres mas a verdade é que toda a gente se concretiza de insensatez e reserva a sua dose de injustiça sendo que, se tivesse que ser, preferia gastar a minha assim.
Existe mesmo o sonho dentro do sonho e é no dormir que cabe a realidade.
Ainda hoje não sei quem elas são sem ser pelos nomes com que se apresentaram. Algumas de nome belo e só isso. Só que o problema de sonhar acordado é ter que por vezes dormir sonhando-as perfeitas como sorrisos; fingi-las completas; desfigurar os sabores sentidos; saber quem elas são, sem ser pelo nome, para depois acordar de desilusão e de espírito amargo para fazer fechaduras de coração.
Esvoaçavam liberdade naqueles corpos até se amestrarem pelo álcool para se apresentarem como gostariam que fossem.
Mostravam-se todas como corpos de ilusão desencantada.
- Não sei se é dos teus olhos mas esse teu coraçãozinho é fácil demais, sabe a pouco.
Mas diziam que não:
-Não é bem assim.
Invariavelmente perguntava displicente:
Quantas vezes foi perfeito e voaste? Quantas vezes foi especial e não doía nem nas quedas nem nada. Quantas foram diferentes, aquelas tuas histórias da treta sempre iguais no mesmo e diferentes em não sei quê e na cor dos olhos?
Quantas vezes disseste “incrível a sensação”;”excepcional o sentimento”; ”indescritível a emoção”? Quantas?
Quantas vezes era perfeito e depois tudo e depois nada e depois tudo outra vez até caíres, e não podias, e chorares para ser perfeito novamente?
Não foi um gesto bonito mas a culpa não me assiste: nasci de coração ao contrário e de sangue agridoce.
- Não estás sozinha, és apenas como as outras. As gajas lindas, como tu. Mas não te vás, estou aqui para ti: vamos fazer tempestades.
Quis mudar o mundo delas, uma de cada vez: um amar de areia único por uma só noite. Cada beijo seria ímpar e proporcionalmente apaixonado e menosprezado.
Algumas rendiam-se, outras diziam que o faziam. Perdiam-se num amanhã, como sempre, dia após dia. Não há futuro nas palavras quanto mais nas sensações: é tudo pior quando se finge.
Quando acordava sonhava ser outra a realidade atrás de cada toque. Cada vazio era uma princesa à espera de ser conhecida; cada deserto um poema à espera de ser escrito e foi esse o destino de algumas: memórias de poesia até gastar o ultimo verso desconexo que as palavras me facultassem.
-Isto tem que acabar –
Estava cansado de abraços de vinganças e vitórias, resquícios e derrotas e varias maleitas de espírito pelo pedi sempre que não se sentissem usadas:
- É uma questão de verdade –
Não que fosse eu o justo o belo ou o bom; justiceiro de almas livres mas a verdade é que toda a gente se concretiza de insensatez e reserva a sua dose de injustiça sendo que, se tivesse que ser, preferia gastar a minha assim.
Existe mesmo o sonho dentro do sonho e é no dormir que cabe a realidade.
Ainda hoje não sei quem elas são sem ser pelos nomes com que se apresentaram. Algumas de nome belo e só isso. Só que o problema de sonhar acordado é ter que por vezes dormir sonhando-as perfeitas como sorrisos; fingi-las completas; desfigurar os sabores sentidos; saber quem elas são, sem ser pelo nome, para depois acordar de desilusão e de espírito amargo para fazer fechaduras de coração.
Thursday, November 29, 2007
Fwd: Capitão Romance, o Incrível
Num tempo em que a loucura assaltava os cegos e os fracos, uma cidade vivia sobre o espectro de uma maligna força cujo poder iluminava como um fogo. A quentura que emanava nunca acalmava qualquer espírito, levantava-se apenas na morte da noite para conquistar as obsoletas almas que deambulavam sob o luar parisiense, levantando a sua chama imensa no crepúsculo anunciado pelo brilho das estrelas mais além.
Como beijos de ocaso, era a calamidade quem reinava, deleitando as falácias pelas quais todos se seduziam.
No céu rosa murmuravam as nuvens amestradas no romance da chuva declarada: lá estava ele, o Capitão Romance, algures longe daquele local, desconhecendo o imperativo do instinto daqueles irracionais seres, até que a febre imensa, emulando as suas emoções em precipício e levando aquelas desditosas sensações ao cume da insensatez, ameaçou tomá-lo como vítima.
Tentou fazê-lo a ele como a todos olharem-se com o brilho de um diamante, solicitarem-se com os olhos e, verticalmente, perder tanto a lógica como a vontade de se alimentar, de maneiras que, deitados no furor, elevar-se-iam aos seus corpos para morrer de fome e de paixão.
No seu reino de flamas silvestres de ardor encontrava-se o coração egoísta onde não se via sequer um pequeno reflexo de ternura exceptuando toda a que tinha como queria, quando queria, quando pudesse. Não se comprazia com a calmaria de um rio, embora se fascinasse com a sua força e voluptuosidade. Dr. Limerance queria dominar tudo com o seu sobrenome. Usava o fogo avassalador para violar a consciência e a razão daqueles todos que se divertiriam com o espectáculo de luminoso que o nobre Capitão e este impulsivo Dr proporcionavam.
Maravilhosa por momentos, parecia aquela paixão de veludo nos olhos brilhantes das donzelas cujo ímpeto dionisíaco palpitava inanimado.
Os cavalheiros, esses, sentiam o desejo subir de forma estreita rumo às armas passionais de todo aquele crime que parecia estar para vir.
No entanto outros, desalentavam-se com aquela força que parecia destruir a tranquilidade em seus seres, impedindo os seus pensamentos de se materializarem tal e qual como Platão, num determinado banquete, prometeu como a Verdade tão bela e altruísta que só os mais nobres corações se permitiriam alcançar. Era por esses que o Capitão Romance lutava com a avidez da calmaria e com o tumulto da harmonia.
Naquele momento, todos pararam para ver o Capitão Romance sucumbir ante a orgástica potência daquele postulante agressor, Dr Limerence.
Este combatia portentosamente aquela vigorosa energia que lhe submetia o espírito clamando a si a ataraxia que miraculosamente largava de seus olhos escarlates. E assim, num lampejo carmesim, a chama sacudiu-se num vazio negro que emanava o enxofre de insucesso que a queda determina como característica, enquanto algures no céu uma estrela se apaga, como solidariedade com o destino da chama intensa. Alguns minutos mais longe, um insensato público espera que o céu continue a iluminar-se e a adornar-se em brilho com aquelas fotos de luz milenar, rendendo-se e queimando-se, fomentando portanto, os desígnios vilanescos do Dr Limerence, que nunca foi destruído.
Aquilo que todos viram só a alguns suscitou a compreensão. Sem o Dr Limerence não haveria um Capitão Romance que fizesse sentido. Não da forma rápida como aqueles tolos levavam as suas vidas. Perceberam então que aquela luta era o significado de tudo aquilo que eles queriam sentir: submeter-se-iam ao fogo sempre, mas com a certeza que algures, um mero herói estaria lá para não deixar que a sensação aniquilasse o sentimento, de forma a que todos entendem e desfizessem a confusão, para que ninguém trocasse a paixão e desejo, amor e paixão.
Ainda hoje há quem conte à descendência as cantigas de um herói e de um vilão que sempre foram um só, cujas batalhas só tiveram um sentido e cuja guerra só criou a vida. Acrescentam sempre no fim, as infortúnias daqueles que se renderam apenas a um e a outro permanecendo sempre selvagens ou apáticos.
E foi assim que o dia em que o Capitão Romance quase se salvou do Amor ficou marcado no coração de todos.
Como beijos de ocaso, era a calamidade quem reinava, deleitando as falácias pelas quais todos se seduziam.
No céu rosa murmuravam as nuvens amestradas no romance da chuva declarada: lá estava ele, o Capitão Romance, algures longe daquele local, desconhecendo o imperativo do instinto daqueles irracionais seres, até que a febre imensa, emulando as suas emoções em precipício e levando aquelas desditosas sensações ao cume da insensatez, ameaçou tomá-lo como vítima.
Tentou fazê-lo a ele como a todos olharem-se com o brilho de um diamante, solicitarem-se com os olhos e, verticalmente, perder tanto a lógica como a vontade de se alimentar, de maneiras que, deitados no furor, elevar-se-iam aos seus corpos para morrer de fome e de paixão.
No seu reino de flamas silvestres de ardor encontrava-se o coração egoísta onde não se via sequer um pequeno reflexo de ternura exceptuando toda a que tinha como queria, quando queria, quando pudesse. Não se comprazia com a calmaria de um rio, embora se fascinasse com a sua força e voluptuosidade. Dr. Limerance queria dominar tudo com o seu sobrenome. Usava o fogo avassalador para violar a consciência e a razão daqueles todos que se divertiriam com o espectáculo de luminoso que o nobre Capitão e este impulsivo Dr proporcionavam.
Maravilhosa por momentos, parecia aquela paixão de veludo nos olhos brilhantes das donzelas cujo ímpeto dionisíaco palpitava inanimado.
Os cavalheiros, esses, sentiam o desejo subir de forma estreita rumo às armas passionais de todo aquele crime que parecia estar para vir.
No entanto outros, desalentavam-se com aquela força que parecia destruir a tranquilidade em seus seres, impedindo os seus pensamentos de se materializarem tal e qual como Platão, num determinado banquete, prometeu como a Verdade tão bela e altruísta que só os mais nobres corações se permitiriam alcançar. Era por esses que o Capitão Romance lutava com a avidez da calmaria e com o tumulto da harmonia.
Naquele momento, todos pararam para ver o Capitão Romance sucumbir ante a orgástica potência daquele postulante agressor, Dr Limerence.
Este combatia portentosamente aquela vigorosa energia que lhe submetia o espírito clamando a si a ataraxia que miraculosamente largava de seus olhos escarlates. E assim, num lampejo carmesim, a chama sacudiu-se num vazio negro que emanava o enxofre de insucesso que a queda determina como característica, enquanto algures no céu uma estrela se apaga, como solidariedade com o destino da chama intensa. Alguns minutos mais longe, um insensato público espera que o céu continue a iluminar-se e a adornar-se em brilho com aquelas fotos de luz milenar, rendendo-se e queimando-se, fomentando portanto, os desígnios vilanescos do Dr Limerence, que nunca foi destruído.
Aquilo que todos viram só a alguns suscitou a compreensão. Sem o Dr Limerence não haveria um Capitão Romance que fizesse sentido. Não da forma rápida como aqueles tolos levavam as suas vidas. Perceberam então que aquela luta era o significado de tudo aquilo que eles queriam sentir: submeter-se-iam ao fogo sempre, mas com a certeza que algures, um mero herói estaria lá para não deixar que a sensação aniquilasse o sentimento, de forma a que todos entendem e desfizessem a confusão, para que ninguém trocasse a paixão e desejo, amor e paixão.
Ainda hoje há quem conte à descendência as cantigas de um herói e de um vilão que sempre foram um só, cujas batalhas só tiveram um sentido e cuja guerra só criou a vida. Acrescentam sempre no fim, as infortúnias daqueles que se renderam apenas a um e a outro permanecendo sempre selvagens ou apáticos.
E foi assim que o dia em que o Capitão Romance quase se salvou do Amor ficou marcado no coração de todos.
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